sábado, 28 de fevereiro de 2015

“LEAKS” HÁ MUITOS, SEU PALERMA!

JORGE NUNO
Há pouco tempo vi a notícia que “a RTP apoia o remake de três filmes portugueses clássicos: Pátio das Cantigas, Canção de Lisboa e Leão da Estrela.” Guardo uma boa lembrança de gags memoráveis nesses filmes, com atores de primeira linha. Ficou retida, para sempre, uma cena do “Pátio das Cantigas”, na “loja do Evaristo”, em que o Vasco Santana, no papel de Narciso, chegava à porta, pegava nos rolos de papel higiénico e dizia para o António Silva – o dono da loja: – “Oh Evaristo, tens cá disto?” –. Por que será que nunca nos cansávamos de ver as mesmas cenas desses filmes, mesmo que os passassem insistentemente na televisão? E por que será que não achamos piada nenhuma a outras cenas que se repetem diariamente na nossa vida coletiva, que entram pela nossa casa dentro, através da televisão, e que sentimos na “pele”?

Preocupado com o rumo que o mundo está a tomar, foi com natural curiosidade e interesse que li o livro “2032 A Nova Idade do Ouro – Uma Esperança Real para os próximos 20 Anos”. A autora – Diana Cooper –, descreve neste livro qual “será a evolução do mundo até ao ano de 2032, data-chave em que cada um de nós participará na ‘limpeza’ do planeta (…)” e afirma que em “apenas 20 anos, o mundo estará irreconhecível. Deixarão de existir governos e instituições financeiras, os telemóveis e a Internet tornar-se-ão dispensáveis e a consciência coletiva da humanidade será tão poderosa que reinará sobre a Terra a paz e a cooperação.” – Ora aqui está um bom plano de intenções para este planeta, restando saber se somos capazes de o cumprir – pensei de imediato, numa altura em que ouço o romancista alemão Günter Grass, prémio Nobel da Literatura, lamentar “que haja na Europa uma falta de líderes capazes de manter a paz” e questionar se “a III Guerra Mundial não terá começado” embora de “forma distinta dos conflitos do século XX”, pois atualmente a internet "permite o bloqueio de sistemas completos", que levam a guerras económicas, “paralelamente aos conflitos bélicos como os que observamos na Ucrânia, Síria e outros países".

Reflito sobre o livro e sobre a notícia e ocorre-me, de imediato, a maior falência nos Estados Unidas da América – Lehman Brothers Holdings Inc. – um banco de investimentos e provedor de serviços financeiros, cuja falência, em 2008, foi desvalorizada e teve consequências desastrosas em todo o mundo, incluindo no “Velho Continente”. A seguir, como os dois anteriores governos resolveram o problema de bancos portugueses com dinheiro dos contribuintes e, mesmo assim, não evitaram a “queda” do BPP- Banco Privado Português, do BPN – Banco Português de Negócios e do BES – Banco Espírito Santo, com consequências gravosas para depositantes e pequenos investidores.

No sentido de dar visibilidade e transparência a várias atividades, tanto bélicas como económicas, através da denúncia, foi criado o WikiLeaks, sendo o australiano Julian Assange um dos nove membros do conselho consultivo, editor-chefe e porta-voz do WikiLeaks, baseando-se alguma informação divulgada através do trabalho de hackers. Por essa atividade, digamos ilegal, foram-lhe atribuídos o Sam Adams Award e o Index on Censorship do The Economist em 2008, foi considerado o "homem do ano" pelo jornal francês Le Monde em 2010, e em 2011 o seu nome consta na revista Time, como “um dos 100 mais influentes do planeta”, sinal que a informação tem um papel importante na humanidade.

Por contágio, surge o TugaLeaks – “órgão de comunicação social que publica informações que não são divulgadas pelo mainstream media”, dizendo que se pautam “pela liberdade de opinião e de informação bem como apreciamos o poder de cada cidadão em contribuir ativamente para uma notícia”, sendo feitas denúncias regulares, nesse site, de situações supostamente anómalas. Contudo, não seria preciso o TugaLeaks para relançar, por exemplo, a questão do arquivamento do “Caso dos Submarinos”, em que o Ministério Público evidenciou dificuldades na obtenção de prova quanto “à circulação e ao destino final do dinheiro pago pelo construtor alemão à ESCOM”, mesmo sabendo-se quem usufruiu de 27 milhões de euros, distribuídos por um número restrito de pessoas, quem foram essas pessoas, e que só foram declarados ao fisco pouco mais de 10 milhões – o resto, terá sido encaminhado “via ESCOM UK/BES Cayman/UBS para um fundo nas Bahamas, o Felltree Fund”, segundo a Visão n.º 1144, de 2 a 11/2/2015. 

A propósito de Portugal, a Diana Cooper refere no citado livro: “As pessoas aqui, como em muitas partes da Europa, estão desiludidas com a corrupção moral dos seus líderes e empresas. Elas começam a questionar e esse aumento de consciência exigirá mudança”.

Muito recentemente, deu-se um escândalo financeiro de repercussão em todo o mundo, que envolve a filial suíça do banco HSBC – um banco britânico, com sede em Londres e subsidiárias em todo o mundo –, despoletado por documentos secretos, ficando a saber-se que “a instituição financeira atraiu 106 mil clientes, entre suspeitos de ocultar dinheiro / fuga ao fisco e de diversos crimes (incluindo traficantes e terroristas) em 203 países, entre os anos de 1988 e 2007”. O caso foi apelidado de “Swiss Leaks” (também numa alusão ao WikiLeaks) e mostrou-nos uma “imaculada” Suíça como a maior lavandaria de dinheiro do mundo, que agora treme com a intensidade de um forte terramoto, com muitas réplicas. Devido a fortes pressões internacionais, a gigantesca UBS – União de Bancos Suíços viu-se obrigada a quebrar a promessa de segredo bancário dos seus clientes, podendo fazer desmoronar completamente todo o sistema, quando os depositantes estrangeiros constatarem que o seu “nome” não tem garantias de ficar oculto, nem dos seus herdeiros de levantarem as respetivas fortunas, tanto na Suíça como noutros paraísos fiscais.

Pelos jeitos que isto leva, em termos de sistema financeiro, provavelmente as profecias de Diana Cooper irão realizar-se dentro do prazo previsto. Também o remake dos tais três filmes clássicos poderá dar um contributo para tal. Como deixaram transparecer, no remake do filme “Pátio das Cantigas”, que a loja do Evaristo será agora uma loja gourmet, ocorreu-me deixar aqui uma sugestão e dar atualidade à emblemática cena da “Canção de Lisboa”, no Jardim Zoológico de Lisboa, com o patusco, boémio, cábula e falso doutor de girafas, leões e de outros animais – Vasco Leitão –. Que essa cena se faça em frente à Procuradoria-Geral da República, com o ator substituto do papel do Vasco Santana a dizer, repetidamente: 
– “Leaks há muitos, seu palerma”!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

AVÓS E NETOS

GABRIEL VILAS BOAS
Esta semana, a revista “Kids e Teens” publicou um estudo denominado Fórum da Criança que revela um dado surpreendente (ou talvez não): cerca de dois terços dos avós ficam com os netos em casa de dia ou depois das aulas.

Foi das poucas coisas boas que a crise económica nos trouxe. Lamento que tenha sido apenas o estado de necessidade a impor esta medida e não a consciência de que esse seria sempre o caminho desejável.
Num momento em que crise económica vergastou a sociedade portuguesa impiedosamente, os avós foram o porto seguro onde mães e pais sem emprego ancoraram o sustento dos filhos.

Hoje é comum encontrarmos muitos avós com a casa cheia de netos, a alimentá-los, a comprar-lhes os livros, a roupa, um ou outro brinquedo. Alguns fazem-no com um desprendimento tão grande, com um amor tão desmedido que voltaram a passar algumas privações para atender aos filhos dos seus filhos.

E se pensarmos que a maioria dos avós portugueses já não tem a disponibilidade física e psicológica para corresponder ao ritmo de uma criança ou adolescente permanentemente ligado à corrente, cheia de aulas, atividades extracurriculares, solicitações sociais permanentes, concluiremos que não se trata duma tarefa fácil de cumprir. Qualquer pai sabe que é muito desgastante acompanhar os horários dos filhos e alguns (os poucos que podem) até têm empregada alocada às crianças. No entanto, a maioria dos avós com netos a seu cargo, não se queixam.

Silenciosamente, estes homens e mulheres de cabelos brancos sorriem aos pedidos dos filhos e fazem mais um esforço. Não negam ajuda, não marcam grandes condições, não querem qualquer compensação económica e, sobretudo, passam uma enorme borracha sobre desconsiderações passadas, faltas de atenção e respeito, em que “levar os filhos a ver os avós” era uma sensaboria, um aborrecimento enorme, que se procurava evitar com todo o tipo de desculpa.

Não deixa de ser irónico que aqueles que foram deixados pelo caminho, entregues à sua bengala e ao seu reumatismo, sejam chamados a salvar famílias à beira do colapso. Hoje, os avós não são mais entendidos como um estorvo, alguém que não percebe o “novo mundo”, mas vistos como parceiros essenciais na educação das crianças e jovens. E, finalmente, os pais perceberam como os avós são gente qualificada na arte de educar, pois têm experiência, amor, sabedoria, criatividade, paciência, tempo.

No meio da dor e do desespero, por entre gritos e divórcios, nasceram algumas flores belas e delicadas. O convívio intergeracional é fundamental em qualquer sociedade. Os tempos difíceis que atravessamos em Portugal deram-nos lições para lá da economia, dado que nos ensinaram a olhar as relações pessoais, afetivas e familiares com mais humildade e tolerância. Devíamos ter percebido antes, mas a linguagem do “in extremis” e da sobrevivência sempre foi muito cara aos portugueses.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

SALA DE ESPERA

ANABELA BORGES
Salas de espera são, como o próprio nome indica, de espera, e quem espera, é sabido, desespera.
Acontece que há muitas formas de esperar, ou, se quisermos, de preencher a espera.
A própria esperança é uma forma de espera: (esperar + -ança) ‘Disposição do espírito que induz a esperar que uma coisa se há-de realizar ou suceder; Coisa que se espera’ (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Não é à toa também que se usa dizer ‘estar de esperanças’ na gravidez, essa espera. 

A jovem mulher chegou, apressada com o bebé de poucos dias, na cadeirinha. Sabia que tinha de se despachar o mais que pudesse – toda a sua vida mudara com o surgimento desse novo ser cheio de exigências, rigidezes de horário e alterações a cada instante, que é o bebé. Procurou um balcão prioritário, para ser atendida rapidamente, os olhos sempre postos no filho, tudo posto nele: as mãos, as mantas, as chupetas, os babetes, os panos.

O homem com as canadianas estava em sofrimento. Não tinha posição para estar ali. Tudo lhe doía. Dizia palavrões para dentro, dizia “pqp, fds para esta merda”. Esticava a perna que não estava doente e voltava a encolhê-la, levantava-se, sentava-se, contorcia o abdómen, balançava-se na cadeira para a frente e para trás. Ainda para mais calhara-lhe um dos lugares nas cadeiras ao meio da sala de espera. Não tinha onde pousar as canadianas. A chamada para a ortopedia estava demorada, “merda, pqp, fds”.

A mulher no banco ao fundo estava impaciente com as horas. Chegou-se o final da manhã e ainda à espera, ainda ninguém tinha dito o seu nome, para ir fazer a mamografia. Tinha de ir embora, preparar o almoço para o marido e os filhos. Pela cabeça passavam-lhe casos que ouvia todos os dias serem contados sobre mulheres que tinham cancro da mama – das que ouvia nas notícias e das que ela conhecia, das que andavam em sofrimento e das que sucumbiram já. A mulher pensou, “Que se lixe o tempo de espera. O que quero é que esteja tudo bem com as minhas mamas. Se tudo estiver bem com as minhas mamas, já dou o dia como ganho”. 

No extremo oposto ao da mulher, um homem dos seus quarenta anos. Tem consulta, inadiável. Impacienta-se com a espera. As horas contam. Apesar da doença grave já diagnosticada, escrita em linguagem técnico-científica em todos os envelopes compridos de cor bege que senta ao colo, tem de ir trabalhar. Assim que sair dali, vai directo para o trabalho. Está tolhido da doença e das perseguições do patrão. Desconta-lhe todas as horas, todas as idas ao médico, e o mais certo é despedi-lo, se não anda da perna. Está fodido. Não pode dar-se ao luxo de perder o trabalho. A doença ruim escrita na testa.   

A senhora reformada, bem aperaltada, vai para o médico como quem vai passear-se ao parque, com um sorriso de satisfação de canto a canto e flashes de exageros na maquilhagem, sombras e blush. Não pára quieta nas cadeiras, a dança das cadeiras, para falar com esta e aquele – com quem estiver com disposição para falar. A senhora reformada vai feliz para o médico. E gosta das esperas. Gosta de salas de espera. Inventa doenças, moléstias e requebros, males-estares súbitos e calores inexplicáveis no peito. Veste o casaco de peles e vai, de cadeira em cadeira, conversa as vidas passadas e as vidas que lhe esvaziam a vida. A senhora reformada não se importa de esperar. E no fim da consulta volta a fazer a dança das cadeiras e só vai para casa quando se faz tarde para fazer as coisas dela.

Na sala de espera, a adolescente está embeiçada. Não gosta de estar ali. Não quer. Ao lado da mãe, mostra má-vontade, como se a mãe ou os outros pacientes ou o mundo inteiro, alguém, tivesse culpa de ela estar doente. A moça adolescente é um poço de silêncios, uma torre de arrogância, mal-agradecida que ela é, perante a condescendência da mãe. Ela mostra-se assim e talvez nem tenha a consciência de ser assim, porque, na lateral, noutra cadeira laranja, está outra adolescente, menina com ar amável, a ler um livro enquanto espera. 

A sala de espera é um corre-corre. Mas também é um lugar parado. Há um burburinho a tocar o tecto baixo de pladur. Pessoas em espera, em diversos estados de espírito, algumas conversando, outras impacientes e outras em circunspecção. Há as que circulam, que vão ao gabinete médico ou ao balcão
A sala de espera tem muitos cheiros: cheira a éter, às roupas das pessoas, a muitas bocas e cabelos, e cheira a velho, por vezes. 

Quando eu era pequena, divertia-me muito nas salas de espera, porque imaginação foi coisa que nunca me faltou, nem a mim nem aos meus irmãos, no dentista, no fotógrafo – bastava olharmos uns para os outros, que era risota, por certo, pois estaríamos já a inventar histórias. 
Para uma criança, a sala de espera pode ser o que ela quiser. Nós crianças, e aquele corredor imenso de tábuas de soalho escurecido era a sala de espera para o fotógrafo. Os adultos num silêncio austero ou falando em murmúrios e a fazerem-nos “shhh”. Muitas vezes, eram eles o motivo dos nossos risos. 

Em todo o caso, são esperas, enfim. O que seria da esperança se não houvesse lugar para a espera?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

ENRICO CARUSO

PAULO SANTOS SILVA
Se fosse vivo, faria hoje 142 anos de idade, um dos maiores vultos do canto lírico de todos os tempos – o Pagliacci, de Leoncavallo foi a primeira gravação na história a vender 1 milhão de cópias. Dono de uma voz invulgar, a que se aliava uma qualidade interpretativa muito acima da média, foi também uma personalidade que se deixou contagiar pelas novas tecnologias que surgiam ao nível da gravação, o que proporcionou que muitas das suas magníficas interpretações tivessem ficado registadas até aos dias de hoje. Algumas delas, foram remastarizadas e publicadas em CD e constituem, ainda hoje, um referencial interpretativo para cantores de todo o mundo. O repertório de Caruso incluía cerca de sessenta óperas, a maioria delas em italiano, embora tenha cantado também em francês, inglês, espanhol e latim, além do dialeto napolitano, das canções populares de sua terra natal. Cantou perto de 500 canções, que variaram das tradicionais italianas até as canções populares do momento. Apesar de todos os cuidados que certamente terá tido com a sua saúde, contraiu uma pneumonia que degenerou numa complicação em forma de pleurisia. Esta patologia, originou problemas sérios nos seus pulmões, que levaram à sua morte a 2 de agosto de 1921, com apenas 48 anos de idade.
italiano Enrico Caruso. Nascido na cidade de Nápoles, famosa (entre outras coisas menos recomendáveis…) pelas suas canções tradicionais, apenas iniciou a sua carreira aos 21 anos de idade, tendo sido discípulo de Guiglelmo Vergine. O facto de ter começado a carreira com esta idade, não o impediu de ter sido o primeiro cantor clássico a atrair grandes plateias em todo o mundo. A título de exemplo, a sua interpretação de Vesti la giubba, da ópera

A voz, é certamente o instrumento musical mais precioso que existe. Qualquer outro, à distância de mais ou menos euro, pode ser adquirido. A voz não. É um instrumento único, pessoal e intransmissível. Ninguém “dá” voz a ninguém, embora muitas vezes ao trabalhar-se a mesma, surjam surpresas muito agradáveis. Já quanto aos cuidados a ter com ela, o cenário muda de figura. Não faltando profissões, além dos cantores, que fazem da voz e do seu uso a sua vertente mais importante (jornalistas, apresentadores, professores, etc.), importa refletir sobre alguns dos cuidados a ter com ela. Sendo as cordas vocais músculos, devem ser corretamente exercitadas para que não se ressintam do esforço. Aquando da utilização da voz, nomeadamente para cantar, devem ser “aquecidas” para que possam revelar as suas capacidades com a máxima qualidade e mínimo esforço. No que diz respeito aos cuidados a ter ao nível do que ingerimos, importa destacar que a bebida adequada ao bom uso das cordas vocais é a água natural, à temperatura ambiente. A propósito, deve ser desmistificado o célebre “afinar da voz” com bebidas como o Vinho do Porto, que mais não faz do que transmitir uma falsa sensação de conforto (devido ao açúcar) e uma maior desinibição (devido ao teor alcoólico). Outro dos fatores a ter em conta para a boa utilização do aparelho fonador, é a respiração. Uma correta respiração, utilizando de forma adequada um músculo importantíssimo como o diafragma, é fundamental para a qualidade da utilização da voz. Numa próxima crónica, dar-lhe-ei algumas dicas de exercícios para que possa exercitar da melhor forma o seu aparelho fonador.

A vida de Caruso foi retratada no filme O Grande Caruso (The Great Caruso), rodado em 1951, sendo a personagem de Caruso interpretada por Mario Lanza, outro dos grandes intérpretes do canto lírico. Uma vez que o argumento deste filme foi altamente ficcionado, acabou por originar a proibição da sua exibição em Itália. Também os últimos dias da sua vida são apresentados de uma forma romântica, na canção Caruso de Lucio Dalla, composta em 1986. 

Deixo-o com uma das suas interpretações míticas – a ária “Una Furtiva Lacrima” da autoria do compositor italiano Gaetano Donizetti.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O TODO E AS PARTES

“(…) Pode pensar-se  que esta retirada  da Teoria dos Jogos é motivada por alguma agenda radical de esquerda. Não é assim. A maior influência aqui é Immanuel Kant, filósofo alemão que nos ensinou que a racionalidade e a liberdade escapam do império da conveniência, que devemos fazer o que está certo.Como é que sabemos que a nossa agenda política modesta, que constitui a nossa linha vermelha, está certa, nos termos de Kant? Sabemos, ao olhar para os olhos de quem tem fome nas ruas das nossas cidades ou contemplando a nossa classe média estressado, ou considerando os interesses das pessoas que trabalham duramente em cada vila e cidade dentro de nossa união monetária europeia. Afinal, a Europa só vai recuperar a sua alma quando recuperar a confiança das pessoas, colocando os seus interesses no centro do palco.” 
Yanis Varoufakis (Γιάνης Βαρουφάκης), New York Times

REGINA SARDOEIRA
Fiquei rendida ao sentido destas palavras e não apenas ao sentido, enquanto abstração, mas ao rigor do conteúdo e à novidade que representa no discurso político atual. Senti-me verdadeiramente justificada nas minhas crenças e nos planos que tenho vindo a traçar relativamente à solução dos problemas do Homem, pois de há muito preconizo e afirmo que bastará seguir o imperativo categórico kantiano, à risca, para que a sociedade encontre, de imediato, o seu rumo e nunca mais haja a sombra de um conflito.

É claro que para chegar a semelhante conclusão teórica – esta, que acabo de enunciar: “bastará seguir o imperativo categórico kantiano à risca para que a sociedade encontre, de imediato, o seu rumo e nunca mais haja a sombra de um conflito.” – é necessário conhecer o pensamento de Kant; e, sendo este filósofo um dos mais difíceis da história do pensamento, dir-se-á que tal não é acessível à maioria das pessoas e portanto o preceito não terá qualquer valor prático.

Eu, pelo contrário, reitero que, uma vez entendido o projeto deste filósofo alemão do século XVIII, tudo se encaixa tão harmoniosamente que qualquer cidadão de cultura média ou mesmo abaixo da média será capaz de o assimilar e logo a seguir estará disposto a por em prática o que assimilou.

Varoufakis diz, invocando Kant, que o nosso dever “é fazer o que está certo”. Haverá sentença mais clara e luminosa do que esta? 

À pergunta: o que devo fazer? Dá-se a instantânea resposta: Faz o teu dever. E o que é o dever? O respeito pela lei. E o que é a lei? Aquilo que a tua vontade elegeu como norma de conduta universal. E como sei que é universal? Consulta a tua razão e tenta descobrir se podes querer que a norma da tua ação seja a norma de ação de todos.

Vejamos exemplos. Devo mentir? Não. Porquê? Porque não posso querer que a mentira seja instituída como regra de comportamento universal. Devo roubar? Não, pela mesma e simples razão. 

Se mentir ou roubar se tornassem normas de conduta universal, teríamos que admitir que nos mentissem e que nos roubassem e não poderíamos queixar-nos porque, voluntariamente, achamos ter esse direito e, ao achá-lo, conferimo-lo a toda a humanidade.

Podemos multiplicar os exemplos. Devemos ser egoístas? Não, porque ao sê-lo e de acordo com a regra da universalidade, abolimos qualquer gesto solidário; devemos suicidar-nos? Não, porque ao realizar tal ato, universalizando-o, estamos a condenar a vida, no seu todo, enquanto condição humana por excelência.

Pelo contrário, posso querer fazer o bem, ajudar os outros, ser justo, porque nenhuma destas ações me prejudica ou prejudica os meus semelhantes e logo é perfeitamente universalizável, de acordo com a minha vontade racional.

E então o imperativo categórico kantiano, aquele que ordena: “Age de tal maneira que possas querer que a máxima da tua ação se converta em norma de conduta universal” ao nortear a conduta de todos e de cada um, eliminaria truques e malabarismos, conveniências e jogos, ardis e subterfúgios. Consultar a nossa consciência, onde imperam uma razão legisladora e uma vontade boa, a primeira, capaz de distinguir o bem do mal e a segunda capaz de preferir o bem ao mal, é o único critério e a garantia de que todos farão, doravante o que está certo.

Mas porque são estes preceitos kantianos designados como imperativos ou mandamentos? Exatamente na medida em que, na base de todo o ser humano há uma componente instintiva, movida por inclinações, sujeita ao vício e àquilo a que o filósofo chamou de animalidade. Sobre essa animalidade, que subjaz à nossa condição, pesam o determinismo cego da natureza, os impulsos irracionais da nossa constituição dupla: somos, a um tempo, animais, porque não escapamos ainda aos ditames dos nossos instintos; mas ascendemos, pela racionalidade, ao discernimento de uma vontade que sabe (porque essa é a sua matriz) distinguir o bem do mal e oprimir os mobiles da animalidade a favor de ações esclarecidas e logo livres. A animalidade subjuga-nos à tirania da necessidade; a personalidade, que é a razão assumida, enquanto instrumento prático, liberta-nos para o rumo certo que, uma vez estabelecido por nós, como regra para nós, seria absurdo não seguir.

Ora, em política, de há muito que o interesse a inclinação individuais se sobrepuseram ao respeito pelo bem comum e à linha de ação regida pela universalidade. E o político não é aquele que serve os outros e a si próprio enquanto elemento do todo, mas sim aquele que se serve de todos para promover o seu interesse privado.

A política não é, contudo, inseparável da economia e das finanças, porque vivemos num tempo em que estes dois segmentos da sociedade são a condição do funcionamento do todo. No entanto, os interesses económicos e financeiros estabeleceram um conluio desonesto com os atores políticos; e eis que, ignorando o todo, esta cúpula social interage, formando um universo à parte e destruindo a harmonia coletiva pela criação de desequilíbrios. Logo, uma parte do todo – os políticos, os impérios económicos e o mundo das finanças – assumiu preponderância, subjugando tudo o resto, a enorme massa das multidões anónimas de todos os países do mundo, e condenando-os a uma miséria coletiva sem precedentes.

Por esta razão, ler um texto de um político a invocar o imperativo categórico de Kant, perceber que, quem assim o faz é o ministro das finanças de um país que escolheu, enquanto povo, enquanto todo, sair da submissão ao império político, económico e financeiro de uma parte, perceber que um homem ousou enfrentar de peito aberto e com otimismo um ninho onde se acoitam os usurpadores dos benefícios que são de todos, é uma rajada de ar revigorante no pântano estagnado e sombrio em que nos temos movimentado. 

De facto, Varoufakis está a dizer a essa horda de vilões que têm comandado e quer continuar a comandar as existências de um povo que escolheu para governar-se, sendo governado, exatamente o oposto, é que tomem para si mesmos o preceito kantiano e façam, desde já, eles também, o que está certo e que é simplesmente, olhar o povo nos olhos, face a face, frontalmente, e captar o abismo das suas carências. E depois perguntar: será que eu, governante deste mundo, agente financeiro desta sociedade, detentor dos valores económicos que usurpei a todos, fazendo-os só meus, posso querer que estas ações que pratico sejam norma de conduta universal? Imediatamente, todos esses perceberão que a resposta é negativa, que nenhum deles quer ser usurpado, oprimido, espoliado. E, nessa medida, fazer o que está certo é libertar os bens acumulados por minorias, os benefícios obtidos por corrupções e negócios ilícitos, as benesses opulentas que se autoatribuíram, usando um poder que o todo dos povos não legitimou em nenhum momento, e distribuir a todos o que é de todos.

Faz algum sentido pensarmos que há países pobres e países ricos e que, numa união de todos, em que – segundo a lógica de qualquer verdadeira união – os ricos não libertem a sua riqueza, gratuitamente para que os pobres deixem de o ser e se crie a igualdade? E que, em acréscimo, quando soltam alguma dessa riqueza, em prol do mais pobre, o façam como um negócio, em que se transformam em instrumentos da usura com que cavam ainda mais o fosso já existente? E ainda que venham exercer vigilância e coação sobre aqueles a quem ajudaram, ditando as regras segundo as quais eles devem viver, uma vez que são pobres e devem parte do seu sustento aos parceiros da união?

Imaginem que um amigo vos empresta dinheiro num momento de dificuldade; e imaginem depois que esse amigo vos obriga a pagar juros sobre a importância que vos emprestou e que, não contente com isso, vem instalar-se em vossa casa para ver se viveis de acordo com o estilo que ele acha que deve ser o vosso, uma vez que estais a viver com o dinheiro que vos emprestou! Chamariam, doravante, a esta pessoa, de “amigo”? Permitiriam que ele invadisse a vossa privacidade, para vos impor austeridade nos gastos e vos reduzir à escravidão? Não prefeririam nunca ter solicitado a sua ajuda e de bom grado o expulsariam da vossa casa, rompendo a união, e recomeçando do zero a reconstrução da vossa independência?

Ora, o que é válido ao nível particular, na nossa comum peculiaridade de viventes no mundo, em que constituímos famílias e grupos de amigos, também deve sê-lo no plano mais amplo dos países que estabelecem uniões para gerar força acrescida e para serem o apoio mútuo e recíproco, sempre que for necessário. Uma união no seio da qual uns ordenam e outros obedecem, uns são senhores e outros súbditos, uns emprestam para colher benefícios daqueles a quem emprestam, é-o somente num sentido: naquele em que a usurpação da fraqueza e a respetiva subserviência de quem se sente inferiorizado serve os interesses daqueles que são mais ricos e querem manter a riqueza e fazê-la crescer. Esta é a lei do capitalismo que, em todos os tempos e lugares, só chegou a sê-lo na justa medida em que a usurpação dos pobres pelos ricos, o uso do poder de trabalho de uns para criar a mais-valia que possibilita o acréscimo indefinido do capital, arrastando consigo, na teia dos interesses, os políticos, donos do poder legitimado em eleições mas, eles próprios perfeitamente cônscios de que, servindo o económico se servem a si mesmos, se foi constituindo a lei da existência humana, de forma praticamente generalizada. 

Apenas por isso, a posição de Varoufakis e a referência ao imperativo categórico de Kant provocam reações cínicas ou levam a um encolher de ombros desdenhoso por parte dos que se encontram confortavelmente aninhados no regaço da corrupção legitimada e da usura suportada por leis que eles estabeleceram – apenas para si mesmos. Porque se acaso não se supusessem subtraídos à lei da universalidade, que faz pender sobre todos, por inerência da própria racionalidade, o que a parte estabelece no santuário da sua boa vontade, cedo se apressariam a querer outra condição, outra categoria humana. Nesse momento, o projeto grego que Varoufakis tem protagonizado, encontrará o eco que não pode, de momento, fazer-se ouvir, no coro esfusiante de todos... que seria necessário. O povo grego, com o seu grito coletivo que deu capacidade executiva a quem prometeu tratar dos seus assuntos, representa uma lição para todos os outros, povo como eles são, espoliados e vítimas da usura como eles têm sido. 

Possa Kant, esse filósofo das luzes, glória do povo alemão, inspirar os seus compatriotas deste tempo, Kant que foi (intencionalmente, creio eu) citado por um grego para abrir os ouvidos de uma geração esquecida do seu mais genuíno filósofo! Varoufakis poderia ter citado Platão ou Aristóteles, pois nas suas teorias politicas existem preceitos, também eles capazes de mudar o mundo; mas deu aos alemães a provar do seu próprio remédio e fê-lo, não para mostrar erudição, mas com o propósito de lhes lembrar a matéria humana de que também são feitos. Eles (os alemães) e todos os outros.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

BANHO DE ESPUMA

CLARA CORREIA
O Tempo voa!” é a exclamação que nos voa da boca de cada vez (e não são poucas as vezes) que sentimos voar a nossa capacidade de controlar aquilo que, afinal, é tão essencial à Vida como o próprio oxigénio: o Tempo … que, diz-se (também se permite exclamar), é o que dele fazemos! Mais concretamente, admitamos que, na generalidade dos casos e das ocasiões, dizemos, ou fingimos, que é o que alguém ou alguma dita “circunstância” nos faz fazer dele (do Tempo, claro está!) … ou não fosse absolutamente instintiva a atracção pela comodidade! Ai, a espuma da vitimização é quase tão boa de embalo como a espuma dos dias! Não que estejamos a falar, por exemplo, do tipo de embalo do caminhar da garota de Ipanema, de Jobim … não! Até porque a natureza anestésica própria do movimento embalatório não é propriamente a mesma na comodidade do recurso à vitimização, na espuma dos dias “todos diferentes e todos iguais”, e na líbido emergente em quem segue, pelo Tempo e pelo mundo fora, os passos sexy da garota que o mundo tomou de Tom. 

Implacável é sempre o Tempo … intransigente ao ponto de não se compadecer com o nosso desesperado desejo de o deter de uma vez, de cada vez que o percepcionamos esquivo e fragmentado em momentos cuja preciosidade precisamos como de pão p´rá boca. É que, ocasionalmente (mais vale ocasionalmente do que nunca), até percebemos que, afinal de contas, o Tempo só é o que fazemos dele quando tudo fazemos para ter tempo para fazer dele o que queremos que ela faça de nós e por nós. E essa intenção não se compatibiliza nem se compadece mesmo nada com a acção corrosiva para o pensamento da espuma dos dias e dos deveres, da névoa dos compromissos e das obrigações a (não) caberem nas duas dúzias de horas diárias … a menos que, de vez em quando, por um momento, obriguemos, dê lá por onde der, alguém ou alguma circunstância a ceder-nos tempo para, por exemplo, um generoso café, saboreado com a generosidade que lhe é devida, ou mesmo um banho de espuma … na espuma dos dias que, sem tempo que não seja para rotinas “todas diferentes e todas iguais”, nos banham em abundância de obrigações, na escassez de momentos preciosamente eternos, como um simples e raro banho de espuma que, eventualmente, até nos salvará de espumar de raiva (ou de qualquer outro comportamento passível de arrependimento) para com quem, certamente, nem merecerá!

domingo, 22 de fevereiro de 2015

ONDE QUER QUE VÁ

MIGUEL GOMES
Encontro-me, invariavelmente, de regresso a mim mesmo a meio caminho de me descobrir ao encontro de uma parede, preso por palavras, acorrentado a frases que se pronunciam a cada silêncio que me bate no para-brisas em forma de gotícula, ainda não húmida, porque a textura da água caberá a mim grafiar, gota a gota, aguaceiro a aguaceiro. Pouco me interessa a companhia do tempo. Ele, tempo, aborrecido, senta-se a meu lado enquanto o conduzo pela minha vida fora, fora e dentro. Há pouco que lhe diga. Um olá, talvez, a cada madrugada em que ele me acorda para eu o poder ver na matematicalidade do relógio digital. São 1:23, 2:34, 5:55, 6:54. Não achas engraçado? Sim, acho, respondo-lhe, agora deixa-me dormir novamente. 

E ele encosta-se às paredes, desaparece atrás da sombra do móvel, que é lugar de tempo, para somente acordar quando me decidir levantar como quem opta por virar em qualquer direcção que não a assinalada numa encruzilhada dessas com que nos escrevem ou compreendem, em forma de sorriso não verdadeiro. Conto Primaveras, embora não mas digam que as há, acredito nelas. Vá-se lá saber porquê, para não ferir susceptibilidades teosóficas, acredito também noutras estações e noutras formas de ver o mundo que não por detrás das minhas lentes gastas e moldadas. Filosoficamente, tudo se assemelha a pop stars com figuras saídas de um imaginário pensado e idealizado sarcasticamente numa sala, com cotovelos numa mesa redonda, onde se decide a quem dar o pão, a quem dar o circo. Taciturnamente está Sol. Sempre esteve. 

Hoje simplesmente não tem nuvens que o permitam deixar de se preocupar em fornecedor iões suficientes para nos aquecerem, iluminarem o caminho. Há algum tempo (saiu agora de trás da sombra do móvel) que ele se pergunta porque queremos a luz, a claridade, se a maioria, isto sabe-o ele bem, continua a sonhar pela noite, envolto em escuridões que saem de trás de cada dia que perderam a trabalhar na sombra dos sonhos de outros. O timbre grave de um saxofone abalou a estrada enquanto esta me dirigia, o volante sacode-se enjoado de andar em círculos e um relâmpago cai-me na visão, para que me veja no espelho, de repente, enquanto lá ao fundo cavalgaram imagens de projectos futuros que deixei no passado. Nunca me pareceu haver pasto suficiente para literalidades, principalmente quando estas se deixam arrebatar pelo que possa surgir por detrás de uma esquina dobrada pelo tempo (este, não, este não é o meu). Pergunto frequentemente qual a frequência que devo sintonizar. Não me respondem. As audiências de outrem ditam o que devemos ouvir, não pelo acto de escutar, mas apenas para ser mais um reverberante sem tripé, sem auscultantes que nos apoiem no acto de fazer bater o coração ao ritmo distante da música que não nos permitimos ver. Já não tenho gotas, texturei-as todas, apenas sucumbo porque fiquei sem combustível nesta viagem de regresso a ti, embora continue a acreditar, a debitar, a crer querer que lá no ocaso onde repousas pensas que eu, apesar da matematicalidade, da migueleidade, da incoerência sonhadora de não me ver a ver o que penso ter visto como verdadeiro, pensas que eu, novamente, seja apenas um pobre e orgulhoso inocente tolo, a quem as palavras prendem com silêncio, porque é nele que consigo dizer algo que não valha a pena, sobre pena de me apalavrar com o destino e este continuar a dizer-me, baixinho, onde andas tu, agora, filho?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A INVISIVEL MÃO QUE EMBALA O BERÇO

GABRIEL VILAS BOAS
Hoje, em muitas escolas, os alunos não tiveram aulas, porque grande parte do pessoal não docente fez greve. 
O assunto não tem merecido grande atenção da população, mas devia porque as reivindicações desta classe profissional são muito justas. 
Depois de verem as suas carreiras congeladas durante anos, mantendo um salário médio que não chega aos 600 euros, os agora pomposamente chamados “Assistentes Operacionais” assistem à degradação e desqualificação completa do seu trabalho, quando a solução encontrada pelo ministério da educação é o despudorado aproveitamento das pessoas inscritas nos centros de emprego para preencher provisoriamente postos de trabalho de necessidade permanente. 

Aparecem nas escolas pessoas que não fazem a mínima ideia do que é o ambiente escolar, como lidar com crianças, adolescentes e jovens, prontos para ganhar três euros, à hora, em contratos dum mês ou menos. 

Esta ideia de que para tomar conta das crianças qualquer um serve é indigna e completamente errada. Quem trabalha numa escola ou simplesmente quem tem filhos em idade escolar sabe, perfeitamente, que são necessárias uma série de qualificações sociais, humanas, afetivas e técnicas para lidar com os alunos portugueses. 

Como é possível achar que um mecânico ou um trabalhador da construção civil podem lidar com crianças de oito, dez ou doze anos, com eficácia e ponderação? Estes profissionais são altamente qualificados, pois muitas vezes têm de gerir conflitos entre jovens, zelar pelo mobiliário escolar, desempenhar múltiplas tarefas na escola, gerir comportamentos provocatórios. Cabe-lhes verificar se os nossos filhos se alimentam corretamente, cuidar da segurança das crianças, impedir que gente mal-intencionada introduza nas escolas vícios nefastos. Devem estar aptos a prestar serviço numa biblioteca, na reprografia ou atender e fazer chamadas institucionais. 

Tanto lhes cabe comunicar com os pais como com instituições públicas e privadas.  
É um trabalho precioso e de muita responsabilidade que não pode estar a cargo de qualquer um que aceita o trabalho porque não o pode recusar, mas que revela total inaptidão para a tarefa. 

Os pais e encarregados de educação devem perceber que não pode servir qualquer um para ajudar na educação dos seus filhos, porque isso é uma irresponsabilidade e uma falta de amor evidentes. 

A escola não é um armazém nem as crianças que nela aprendem são objetos. A escola é um sítio fundamental para a vida de qualquer pessoa e nela deve apenas trabalhar quem está qualificado para o fazer. 

O ordenado ganho por estes profissionais já é tão baixo, face àquilo que lhes é pedido, que torna ainda mais injustificada a atitude do ministério da educação em recrutar, sem critério, assistentes operacionais, à hora, para as escolas portuguesas.
Não é possível aceitar que tenhamos voltado ao tempo do trabalho à jorna, sem direitos, completamente desregulado, como era típico do tempo da ditadura. Não é aceitável o silêncio culpado do ministro Crato, sempre tão lesto a humilhar professores, que neste assunto fica calado como um rato. 

Mais do que ficar aborrecido com o facto de os filhos não terem hoje aulas e não saberem onde os deixar enquanto trabalham, os pais e as mães portugueses devem compreender e apoiar as justas reivindicações desta gente que há muito tempo faz o seu trabalho e o do colega que se aposentou, que vê o seu trabalho desqualificado, desconsiderado e entregue ao desempregado que estiver mais à mão e aceitar trabalhar por uma senha de refeição.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A GRIPE É UM TEMPO INÚTIL

ANABELA BORGES COM GRIPE
Foi caso para dizer, como no Auto da Barca do Inferno, “Ó, triste, quem me cegou?”.

Há dias, alguém dizia que a gripe era boa para ver filmes e para pôr as leituras em dia. Eu ouvi e calei.

Mas agora, eu tenho uma pequena teoria sobre quem disse isso, que é como quem diz, das duas… três:

1 – Não sabe o que está dizer.

2 – Pensa que está com gripe, mas não está.

3 – Está com os delírios da febre (da gripe).

4 – Nunca teve gripe.

E ainda acrescento: se a gripe desse para ver filmes e pôr as leituras em dia, ou seja, havendo cabecinha para isso, também daria para ir trabalhar; não obrigaria a ficar na cama.

Foi um bicho que me atacou. Veio de uma estirpe, A ou B, ou uma mistura de ambos, vá-se lá saber! 

E deitou-me por terra (neste caso, foi por cama, felizmente não tenho uma cama feita de terra, só às vezes no Verão) durante dois dias. Mas isto, nem eu sonhava, foi apenas o começo.

Paracetamol e analgésicos haveriam de ser a minha garantida salvação. Bem: dois dias, paracetamol e analgésicos foi o que eu decidi que seria a minha garantida salvação. Foi o prazo e o remédio que dei ao bicho para se ir embora, para ir chatear outro, para se mudar de minha casa para terras longínquas (“Ó Inferno?... Eramá!”). 

Passada tão duvidosa vitória, fui trabalhar. 

“Erros meus, má Fortuna, Amor ardente”. O mundo continuava a girar, é certo, só que, desta vez girava-me na órbita da cabeça, um mundo inteiro, um peso pesado, um mundo de chumbo. E como viver com uma cabeça em órbita?

As dores de cabeça vinham do apertar de um torno por de cima dos sobrolhos, reduzindo o espaço encéfalo a um exíguo compartimento onde cabia o espraiar de sete mares e o ondular de mil marés, tudo num ruído ensurdecedor. Os enjoos eram como barcas à deriva nesses mares, as vagas, difíceis de conter, a subirem-me aos gorgomilos. Estava sempre a ver quando cairia para o lado, de fraqueza ou de natural agnosia, que se calhar era a mesma coisa. E uma das mais espantosas experiências que haveria de vivenciar, com o andamento das horas e o agravamento do estado de saúde: por mais que tentasse manter uma certa compostura, andava de lado, como a carangueja. Como aquela carangueja da fábula de La Fontaine. Pois, de lado. E assim andei à deriva durante sete dias, a trabalhar. 

Até que chegou a noite em que os sete mares e as mil marés precisavam de mais espaço, de saltar borda-fora, queriam uma tempestade inusitada, completa e verdadeira. Um caos no espaço encéfalo, dor e barulho ensurdecedor. 

É uma coisa espantosa, é pois, a tua cabeça a arder como bola de fogo afundada entre os lençóis, e pender bem para o fundo, como se o teu colchão tivesse um buraco, que fosse ardendo. E nem esse fogo, ardente, pesado, apagava os mares e as marés, que continuavam no seu marulhar incessante!

Médico: 

O bicho teria evoluído, dentro de mim, para outra estirpe. O bicho mais forte, com mais garras – podia ver-lhe as garras – divertia-se com o meu corpo, com as minhas diminuídas capacidades físicas e mentais.

Nova medicação: atacar o bicho. E como não há duas sem três, avisou-me o médico que o vírus poderia voltar a evoluir, porque, no trabalho, mantive-me sempre em contacto com o foco de infecção. E ele (o bicho) a rir-se e a evoluir sempre. Maldito! (quem me cegou?). De tudo, não vi “senão breves enganos”. Qual descansar, qual ler, qual ver televisão? Bicho-do-mato-com-ar-de-ter-sido-desenterrado-vivo, isso, sim. 

Baixar as guardas, que é o mesmo que dizer baixa médica. Aterrar verdadeiramente. Parar. Mares e marés na cabeça; fogo ardente e suores frios; enjoos aos gorgomilos. 

A gripe é uma prostração, um tempo morto, um tempo inútil. 

Não li uma linha, não escrevi duas. Não vi filmes. Preparar duas torradas para a minha filha, que estava também com gripe, foi um dos maiores testes de capacidades a que já fui sujeita.

A gripe não serve para nada. 

Respeito. Parece-me que esta pequena amostra do que passei dá para perceber o que passarão as pessoas que se defrontam com doenças graves, duras, difíceis, incapacitantes, e, em muitos casos, incuráveis. Mal de quem sofre de doenças! Mal de quem não tem saúde! Respeito. 

Nesse tempo – foram desta vez tês dias seguidos de ausência, mais o fim-de-semana (dará cinco) – fui afora deste tempo em que vivia. E agora, há o parecer-me querer aportar, novamente, a um lugar seguro, uma espécie de normalidade. 

“afora este mudar-se cada dia”, parece-me que vou neste mundo em outa vez entrando. 

“Ouçam a longa história de meus males, 

E curem sua dor com minha dor; 

Que grandes mágoas podem curar mágoas.”

Luís Vaz de Camões, "Sonetos" 

É o que vos digo. 

Assim é. Ou talvez não. 

A REDE EMPAREDADA

HÉLDER BARROS
Joana e Patrícia, de seus nomes. Joana tinha 16 e a Patrícia 15 anos de idade, ambas frequentavam o 8.º ano de escolaridade. Mas a escola não fazia parte dos seus planos imediatos de vida. Consideravam-se miúdas da moda, vestiam quase sempre roupas típicas de pronto a vestir juvenil, sapatilhas, calças com o mesmo corte, num estilo urbano e bastante agressivo. Nos adereços e penteados seguiam igualmente a mesma tendência. Um estilo de vanguarda e simultaneamente descontraído, que criava uma sensação de pertença a uma tribo mais alargada de jovens rebeldes e prontos para incorporar o que resta da espuma dos dias: malta cool.

Uma delas, a Joana, chegou mesmo a ser convidada para uma sessão fotográfica, através de um amigo comum, que a viu desfilar num bar da moda na cidade e que a considerou muito fotogénica. Posteriormente, tem sido convidada para outros eventos e já foi capa na promoção de uma coleção de roupa juvenil, num género de vestir em que se revia, com gangas rasgadas, maquilhagem muito escura e depressiva, onde ser jovem parece ser uma seca, a vida parece morte e a depressão saúde…

Já ambas tinham sido iniciadas no tabaco, álcool, drogas e sexo. Para elas a vida não tinha segredos em qualquer das suas dimensões perigosas. Pelo menos, era isso o que queriam aparentar, na escola, nos bares e discotecas que frequentavam. O que poderia alguém ensinar-lhes, se elas conheciam a face mais negra da noite, a versão mais oculta dos seres humanos, o lado errado das coisas, tudo o que se não deve fazer, uma exaltação dos amargos e obscuros recantos da vida... o resto, para elas, mais não era do que tédio e uma valente seca!

Na escola, embora frequentassem a mesma turma, durante as aulas trocavam mensagens escritas, numa vontade infinita de fintar a solidão que as unia. A ligação em rede em que todos vivemos, nos dias que correm, não encobre os receios de quebra de corrente de afetos, pois não é disso que se trata. É antes, uma enorme vontade de ter interlocutor, para partilhar o nada em que vivem, o seu vazio existencial, a sua demanda de afetos que nunca experimentaram e uma estranha rebeldia que mais não será do que uma prisão de paredes bem maciças, inexpugnáveis. E, nessa ilusão de corrente, de linha, de rede, até se criou uma linguagem muito própria, formada por abreviaturas e caracteres iniciais das palavras, para se teclar mais rápido e se não dizer nada de significativo, mas mais depressa, com a ilusão da omnipresença de alguém do outro lado, do estar sempre online, de feedback imediato.

Fui criado numa aldeia, em que um casal do lugar tinha telefone no seu lar, algo que se constituía então num verdadeiro luxo e os vizinhos davam esse número a familiares e amigos, para ligarem em caso de grande urgência. Eram autênticos telefones comunitários, mas a rede era mais assertiva e direcionada: comunicava-se para falar mesmo, havia uma mensagem, um conteúdo, um sentido na comunicação, um propósito bem definido, uma parcimónia de palavras fúteis, pois o recurso de comunicação era caro e não generalizado.

Será que podemos classificar como conversa efetiva, o envio de ícones e de caracteres estranhos, numa linguagem minimalista e desprovida de conteúdo e, não raras vezes, de sentido. Dois seres humanos fechados numa sala qualquer, entre quatro paredes, a simularem uma gama de comunicações e de sensações fictícias estranhas, tipo rir, chorar, cair, comer… tal poderá ser comunicação, mas será sempre vaga e desligada de raciocínio. Eis o drama da sociedade atual, está-se sempre em rede, mas pouco se comunica, se partilha, se interage, se relaciona… o mesmo se passava igualmente com a Joana e a Patrícia, numa rede de equívocos, de conversas ocas, de relações superficiais... mas, que lhes davam a sensação de conexão intemporal, em sincronia e constante.

Se um nosso amigo do facebook, inopinadamente, se coloca em estado triste, toda a gente tende a perguntar o porquê e a enviar mensagens de acalento, mas quase sempre, debalde… a partilha do sentimento não corresponde a um desabafo entre duas pessoas com ligações afetivas autênticas, logo não existe catarse, pois não se cura o que não se conhece e não se entende, percebe, ou se partilha cara a cara. A comunicação, assim, corresponde ao aumentar do vácuo, da depressão, da falta de senso, da dispersão, nunca se indo ao fundo dos problemas, das questões.

É como estar muito tempo a assistir a programas de televisão onde se vêm pessoas que não conhecemos, a interagir dentro de uma casa, encenando polémicas fúteis, revelando corpos jovens, musculados e tatuados, como o seu ser, artificial e fútil. Não são, nem de longe nem de perto, atores em palco, logo não é de Teatro que se trata. Nem sequer é um filme de amadores, pois o esforço de representação, com alguma elevação, é realmente nulo. Trata-se de mostrar vegetação humana em estado natural, sem ficção, a realidade torpe de seres ocos. As relações são superficiais, não há sequer tribo, existe uma rede de equívocos provocados ou não, por seres vazios de conteúdo, de afetos, de redes verdadeiras, numa ecologia relacional e de troca de afetos, verdadeiramente, inóspita e miserável.

Tudo isto vem a propósito das relações humanas, cada vez mais intermediadas por processadores e memórias cada vez mais rápidos, potentes e embutidos em interfaces, cada vez mais incorporadas nos nossos membros e cérebros. Temos a rapidez de processos e uma elevada potência de comunicação que, ainda não estão a ser correspondidos pela capacidade de trocar conhecimentos e afetos. A Joana e a Patrícia sofriam deste mal consubstanciado na interação da sociedade atual, ausência de inteligibilidade e de inteligência emocional.

Estaremos então numa época de regressão no domínio cognitivo e no domínio da inteligência relacional e emocional?... Sinceramente, acho que não! Trata-se, penso eu, de uma fase de adaptação a uma nova forma de existir, numa era em que o ser humano está a ser convidado a viver num ritmo superior ao natural, numa linguagem quase binária que não se coaduna com as nossas capacidades cognitivas e relacionais, bastante mais complexas e encadeadas.

Não há gerações superiores! Todas são reflexo dos valores que se transmitem, de umas para as outras. A nossa história não o desmente e comprova uma evolução tecnológica altamente acelerada dos últimos trinta anos. Nunca, em toda a nossa civilização, se evoluiu tanto em tão pouco tempo. Será que a nossa capacidade de integração e assimilação desse desenvolvimento entrou em debacle?... E se pudéssemos parar para pensar? Tal também não me parece possível, a máquina de desenvolvimento tecnológico já não se pode parar, entrou em fase de aceleração exponencial. Entretanto a Joana e a Patrícia continuam infelizes... a brincar às comunicações com a rede quebrada... pretendem ser famosas, no seu nada existencial... estão até a ponderar ser noivas de dois Jihadistas que lançaram um pedido de casamento através das redes virtuais, repentinamente, descobriram uma causa para as suas vidas!

Será que se pode retirar alguma moral disto tudo, ou a conclusão é que a moral já não existe, ou que se perdeu a noção de moral… algo que se pode reter pela constatação imediata é que a evolução relacional e emocional, parece estar ao invés da tecnológica e que a ética não se deveria desligar da evolução científica, pois a evolução poderá ser transformada em involução humana, num retrocesso civilizacional. 

Mas e para terminar, a Joana e a Patrícia continuam agarradas ao seu dispositivo de comunicação móvel, seguem a novela da vida real na TV, vivem em profunda solidão, mas não percepcionam a sua situação, pois estão de tal forma presas à rede e às teias da solidão disfarçadas em likes e de estados de espirito traduzidos em bonecos animados intuitivos... a má notícia é que começamos a ficar rodeados por muita gente assim... vazia, mas sempre online! E depois, qualquer moda estúpida, poderá ser sempre a única causa de uma vida vazia!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

40 DIAS

SARA MAGALHÃES
Depois da folia do carnaval, hoje tem início, para os cristãos, a Quaresma. São 40 dias de caminho, a fazer caminho, a viver o caminho. 

São várias as referências bíblicas referentes ao número 40: os Hebreus caminharam 40 anos no deserto para só depois alcançarem a Terra Prometida; foram 40 anos de vida dura, sacrificada, de purificação da idolatria; Moisés permaneceu 40 dias no Monte Sinai antes de receber a Lei, em oração e penitência diante da majestade de Yhavé; Elias caminhou 40 dias no deserto para chegar ao monte de Deus; Jesus Cristo jejuou 40 dias no deserto antes de iniciar a sua vida pública.

A Quaresma é um tempo de caminhada, de reflexão, de conversão interior. Durante este período os cristãos vivem, ou deveriam viver, de uma maneira especial a sua relação com Deus e com os outros. 

No entanto, a maioria das pessoas, já não entende palavras tais como: conversão, penitência, jejum, oração… A Quaresma tem todas estas palavras no caminho. Mas nestes tempos modernos, parece que todas estas palavras e o que elas implicam já não fazem sentido. As manifestações da fé, para o cristão atual, passa pelo individualismo, privado, fugindo da referência histórica de Jesus Cristo. O mesmo Jesus Cristo, que pelo caminho que fez, amou incondicionalmente o ser humano e nesse mesmo caminho Ele próprio viveu a oração, o jejum, o amor e o perdão.

Para mim, este caminho de 40 dias, através da oração, do jejum, do amor e da reconciliação é: caminhar ao encontro deste Cristo, apesar das dúvidas e dos sofrimentos; é acolher a eternidade numa vida cheia de mortes, e vislumbrar, apesar dos meus insucessos e dos meus medos, a vida nova e o mundo novo em que nada, nem as lágrimas nem o pecado, me poderá separar do amor de Deus. Caminho em direção a Cristo e quero ir até ao fim do amor e do dom de si, na certeza de que o perdão e a reconciliação podem vencer os ódios, a desconfiança e a exclusão; que a solidariedade e a partilha podem ultrapassar as barreiras dos egoísmos e das injustiças que a humanidade enfrenta.

Espero acolher na minha vida o Reino de Deus que torna todas as coisas novas, e abrir-me a um mundo novo cheio de amor vivido em atos e em verdade.

“Senhor, que sabes quem sou,
sabe lá também o resto:
Sabe lá que o meu protesto
não é isto que tu vês...
Não é isto...
Nem a facada no teu filho Cristo...
Nem o pranto que tens visto
correr em lava a teus pés...
Não é isto,
nem o sonho de BabeI...
Nem o bombo que fiz da minha pele...
Nem o Credo num Deus que me perdeu...
Foram gestos que passaram
pelo meu corpo, e roubaram
um perfume que julgaram
que era meu...
Não é isto, nem aquilo
que um mocho a cantar de grilo
te mandou como um sinal
da grande dor que me dói...
Só é sinal do meu todo
esta elegia de lodo ,...
 que não foi...

Não é isto,
nem o muito que há-de vir:
O sarro que há-de sair
da vasante da maré...
O fundo do mar é sujo...
Mas nos olhos do marujo
não se vê...
Não é isto, nem é nada
que chegue à tua morada
sem a minha assinatura,
que sou eu...
Eu, esta ovelha ranhosa
que remói silenciosa
a lembrança dolorosa
do pastor que lhe bateu...”  in de profundis, Miguel Torga

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

DISCURSO AFÁSICO

REGINA SARDOEIRA
Roland Barthes escreveu algures (julgo que na obra Mitologias) que existe uma afasia natural no homem, ou seja que em princípio nada há para dizer quando nos defrontamos com uma página em branco. E eis o pavor que muitas vezes acomete todo aquele que precisa de escrever (ou de falar) e nada lhe sai de uma espécie de buraco onde os signos flutuam, dispersos e sem nenhuma coesão à vista.

Hoje sinto-me no seio desse estado de afasia, quero escrever e tarda a estrutura frásica e as próprias palavras como que se penduram, aqui e além, destituídas do seu significado, caindo aos pedaços, uma letra e depois outra…Desisto de procurar o sentido e quebro (já quebrei) a alvura cintilante da página em branco deixando correr os dedos no fluxo aleatório das teclas, sem curar de um tema, sem me ocupar de um nexo, sem aquela urgência que por vezes me acomete de apor racionalidade aos argumentos que produzo e com os quais tento expor e provar uma certa tese.

Não, hoje não haverá nenhuma tese. previamente engendrada, hoje o que sair da ponta dos meus dedos terá o automatismo do pensamento fluido – que sempre acontece sem dele tomarmos consciência

De facto não quero estar consciente, pretendo amodorrar-me numa meia sonolência vizinha do delírio e permitir a tudo o que jaz ignoto, até para mim mesma, se desvele perante os leitores. Eles próprios, esses leitores que nem sei quem são ou se existem, poderão largar as minhas frases vagabundas, logo à partida, ou então talvez corram a tentar perceber o que queria dizer Roland Barthes, quando falou em afasia natural do homem ou quem foi Roland Barthes e que livro é esse, tão sugestivamente chamado Mitologias.

Eu fiz o gesto de levantar-me e ir à estante procurar o livro, deve estar ali a um metro deste lugar onde escrevo, mas desisti: não irei abrigar-me à sombra de uma frase, nem especular o sentido de uma ideia, nem verificar se a sentença de Barthes está mesmo em Mitologias ou noutra obra qualquer.

Afinal, percebi há muito que quando sabemos seja o que for e nos lembramos desse saber, pouco importa que nos tenha sido ensinado por este ou por aquele, já que passou para nós e daí em diante pertence-nos, como componente intrínseca do nosso acervo cultural privado. 

Roland Barthes disse que há uma afasia natural no homem? Falou da angústia do escritor perante uma página em branco? A memória diz-me que sim, que foi ele que assim exprimiu uma possível caraterística do homem, que pensa e comunica; e eu, na altura em que isso me foi soprado. encontrei-lhe uma adesão interna de que ainda não em libertei. Logo a frase de Barthes passou a pertencer-me e também a sua interpretação, independentemente do que terá especulado este filósofo da linguagem que, apesar de tudo, citei. Mas citei-o, sem verdadeiramente o citar, apenas aludi então (e corrijo-me); e pouco me importa que venham os eruditos todos deste mundo vociferar que não foi em Mitologias que Roland Barthes fez semelhante alusão ou que, quando referiu a caraterística afásica do homem, não queria dizer o que, afinal, eu quero que ele tenha querido dizer. E é assim. 

Nós, humanos, falamos muito, eu diria que falamos demais, e ainda que a esmagadora maioria das palavras que proferimos é inútil, pois pode significar outra coisa muito diferente do que afinal dissemos e ser interpretada de um modo que em nada corresponde ao que queríamos dizer. E então, o termo afasia de Barthes pode significar excesso palavroso, isso mesmo, excesso e não carência, pois quando todos vociferam ao mesmo tempo o resultado é um borrão sonoro sem qualquer réstia de sentido.

Afásicos: eis o que somos naturalmente e eu acredito. As palavras são subterfúgios com que tapamos a nossa obscuridade e o nosso nada ter para dizer e ainda a nossa ignorância acerca de tudo o que poderá existir para sabermos. As palavras são os ornamentos da nossa vaidade de falantes, as joias com que vamos ataviando a nossa pobreza racional, o estímulo com que avançamos no tempo, enredados em vocábulos que, por muito que intentemos procurar, jamais saberemos de onde vieram e para onde irão, a armadura da nossa fragilidade de seres demasiado abertos ao despojamento e à ausência.

Mas mesmo sendo afásicos e mesmo desdobrando pelas plateias do mundo mananciais verbosos, ora eruditos ora vãos, o certo é que vamos transformando o mundo com esses rudimentos de discurso, feitas armas de arremesso.

CARNAVAL É FOLIA

ANTÓNIO PATRÍCIO
Carnaval é folia, extravasamento de “galderice”, festa onde os homens – alguns – tomam a liberdade de assumir uma identidade que não é a sua.

“Pelo Carnaval ninguém leva a mal” dito popular que, para mais não serve, do que adocicar algum azedume provocado pelo uso e abuso da liberdade – libertinagem – de uns tantos que, aproveitando-se da ocasião, soltam impropérios e fazem partidas nem sempre de gosto acautelado.

O nosso São Gonçalo também esteve envolvido em algumas manifestações populares de base folgazã conhecidas por “Gonçalinas”, do outro lado do Atlântico e, por serem libertinas e tomarem contornos algo controversos e pouco consentâneos com os bons costumes acabaram por ser proibidas. 

O pesquisador brasileiro Francisco Martins dos Santos, numa edição de 26 de Março de 1944 do jornal santista A Tribuna, faz-lhes referência nos termos seguintes: “No século dezoito não havia carnaval no Brasil. O vírus da pagadoeira ainda não se inoculara no sangue do nosso povo e Momo I e Único ainda não descobrira a terra cabralina mas, em alguns lugares, as festas de São Gonçalo eram o próprio Carnaval de agora, um pouco agravado em suas características, o que não deixa de ser lisongeiro para o mal falado século XX.

São Gonçalo era o santo das danças e das festas ruidosas, incluindo-se nessas festas as cavalhadas. Em Santos não havia cavalhadas, mas havia coisa melhor, mais divertida, e na altura de 1770, as "gonçalinas" eram mais do que tudo aquilo, eram o pretexto para certos excessos, para a bacanal, a folia rasgada e desabusada em que se metiam, por dois ou três dias, brancos e negros, pardos e marabás, rameiras e moças do povo, e também as grã-finas da época, as sinhazinhas ricas, que o vulgo em geral só via nas missas domingueiras, tal o seu recato, e todos seduzidos pelo raro encanto daqueles dias e daquelas noites. 

Parece que foi com as gonçalinas que surgiram as máscaras no Brasil, disfarçando a seriedade de alguns, escondendo a identidade de muitos, nivelando e confundindo num divertido anonimato, gente de todo estalão e até circunspectos camaristas, o que parecia não ser do conhecimento dos governadores, instalados em S. Paulo”. E mais adiante cita uma carta que um tal António Siqueira, escrita em 1770, a um amigo no Rio de Janeiro: “As gonçalinas nesta boa terra são a coisa mais divertida deste mundo, misturando ofícios e festas religiosas com festas profanas de gosto e feitio bem tropical, saturnais que lembram aquelas descritas nos velhos autores gregos e romanos, e que vão muito bem na tristeza desolada destas marinhas malcheirosas. A brincadeira passa da rua para dentro das casas e de dentro das casas para a rua, culminando com uma tal de umbigadas que vai ao som de uma banda de música, misturada com vários instrumentos africanos, realizada na praça, e que é verdadeiramente inesquecível. A maior parte das festas são feitas com máscaras as mais diferentes, trazidas da Europa, etc.”. 

São estes escritos que me levam a supor que as manifestações carnavalescas tão propagadas no nosso país irmão têm muito em comum com as censuradas “Gonçalinas”. Numa e noutra há o uso e abuso de actos libertinos, muita música, muita dança, muita comida e bebida e muitas outras coisas mais...
Fevereiro é, pois, o mês de tudo e de nada, uma vez que, acabada a folia se entra de imediato no tempo de recato e de contenção – a Quaresma.

Ao tempo, enquanto as elites se fantasiavam e passavam a tarde e noite em bailes e folganças nos salões engalanados dos clubes privados, os outros, mascaravam-se e bailavam nas ruas e praças dando largas a uma liberdade de procedimentos pouco permitidos nos outros dias.
O homem ao contrário dos outros animais, sempre se soube mascarar para obter o que mais lhe convém e, nos tempos que correm, vivem permanentemente mascarados, se não na apresentação, pelas palavras.
Vejamos, como todos os dias, nos entram casa adentro, sem pedir sequer licença, pelos meios de comunicação social, bem engravatados, soltando frases pré-ensaiadas, suaves ao ouvido mas pejadas de enganos e inverdades agradáveis.

Condena-se e absolvesse, difama-se e branqueia-se com uma ligeireza assustadora criando-se a ideia estapafúrdia de que tudo se pode dizer e fazer em nome da liberdade seja ela de expressão e ou de procedimentos.

Viola-se à esquerda, mata-se à direita em nome da liberdade; bombardeia-se à direita, incendeia-se à esquerda em nome da liberdade. Mas que liberdade? A tua? A minha? A daquele? A do outro?....

Brancos, negros, vermelhos e amarelos clamam liberdade. Cristãos, muçulmanos, judeus clamam liberdade. Mas que liberdade? Uma liberdade universal de base no respeito pelas diferenças, credos, cores, culturas...ou uma liberdade individual, utópica, extremista, intolerante e inconsequente no rasar tudo e todos?

Aproveitemos o mês do Carnaval e façamos um exame de consciência separando o trigo do joio, reflectindo sobre a LIBERDADE e como e quanto iremos trabalhar no sentido de desenharmos um futuro equilibrado onde todos possamos viver e conviver em paz e tolerância.

CARNAVAL

ANABELA BORGES
Eu não acho graça nenhuma, mas nenhuma mesmo, que o Carnaval português seja abrasileirado. Primeiro, porque acho infinitamente mais interessante a nossa tradição dos trapalhões, dos bombos, das máscaras, dos gigantones, dos caretos, dos mascaréus, que era assim que chamávamos à forma como nos vestíamos de homem, de mulher, de velho, de rico, de pedinte, sempre com roupas dos adultos para parecermos mesmo ridiculamente tolos e, quanto mais não fosse, para nos rirmos da nossa própria figura; segundo (mas muito menos importante), porque está sempre um frio de rachar pelo Carnaval e as meninas vão, rua acima rua abaixo, a sambar, coxa grossa a tremer como gelatina e pele de galinha no peito. 


Quanto melhor é um grupo de zé-pereiras a fazer a arruada, gigantones de braços bambos no calor da farta vestimenta, seguindo-se o desfile de graúdos e miúdos – os adultos com perucas, maquilhagem, mamas e cus postiços, as crianças nas peles das suas fantasias mais reais, os seus heróis. Imaginação e alegria, muita alegria! 


O Carnaval pode ser um dos momentos de maior criatividade popular em Portugal.

E, se gostam do samba, podem sempre guardá-lo para as festas de Verão, para as romarias, que temos muitas no nosso Portugal, graças a Deus. Mas sempre sem esquecer os bombos, os caretos, os gigantones e a banda de música e a fanfarra.

Não nos tirem isso!