terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A BANALIDADE DO MAL

REGINA SARDOEIRA
Habituámo-nos a considerar que o mal existe e se estampa no rosto e nas atitudes daquele que é mau, pelo que o homem mau pertencerá a uma certa categoria de seres, de tal modo monstruosos, que vê-los, ou às suas obras, fará deles grandes indivíduos – se bem que no lado negativo da escala de grandeza.

O mal existe? – pergunto. 

Inseridos num coletivo humano, regidos por padrões morais e éticos, somos confrontados diariamente com esta dicotomia: de um lado, está o Bem, pontificando em boas ações, em boas pessoas; do outro lado, está o Mal, visível nas más ações e nas más pessoas. Nesta ordem de ideias, existem o Bem e o Mal, sendo que o primeiro está de acordo com a norma ética e o segundo, em desvio dela.

Simples, não é? Se quisermos saber se um certo ato, uma certa pessoa são bons ou maus, basta consultar a lei e aferir, para categorizar. O desconhecimento da lei não desculpa o afastamento dela, sabemo-lo: sendo cidadãos livres de uma determinada ordem social, temos o dever de conhecer as regras do lugar que habitamos, a fim de nos tornarmos dignos do estatuto de cidadãos, com que usamos apelidar-nos.

Porém, na prática, semelhante categorização dicotómica não se revela assim tão linear e, muitas vezes, o caráter hermético ou ambíguo da lei impede-nos de ver com clareza a fronteira que, de uma vez para sempre, possibilitaria o esclarecimento e a correta separação entre o Bem e o Mal. Por isso, há grandes equívocos na História Universal e na história privada de cada um de nós, pois que a escala de valores parece fluidificar-se, dando-nos ora uma definição, ora outra do que deveria ser absoluto e definitivo, uma vez estabelecido – e afinal parece que não é.

Hitler, falemos de Hitler. Em si mesmo, ninguém hoje poderá dizer quem foi, de facto, semelhante pessoa, porque o “si mesmo” ou “self” ou “selbst” pertencem ao reduto interior de cada um que, apenas ele, poderá (se puder) desvendar perante a sua própria consciência. Todavia, semelhante personagem percorreu a História Universal e nela ficou como marca e sinal. Marca de maldade absoluta e radical, pois de acordo com as múltiplas narrativas que nos servem de elucidação, terá sido o responsável supremo de um holocausto cometido de modo gratuito e intencional, pois visou um certo tipo de pessoas, apenas por serem quem eram, sem culpa formada, sem julgamento, sem sentença. Mas sinal da existência, confirmada e provada, de que há um certo tipo de pessoas – que não podem ser catalogadas como “demónios” porque isso seria desresponsabilizá-las – viradas para o mal, capazes de cometerem os crimes mais nefandos, aparentemente sem poderem fugir a uma marca de caráter, a uma inscrição no próprio ADN. 

Hitler poderá ter sido um desses exemplos do designado mal radical, mal que se foi desenvolvendo nele na mesma medida dos membros ou da inteligência e se tornou a sua natureza. Perante Hitler, todos os outros homens emudeceram, pois, ao que podemos supor, o mal conferia-lhe uma auréola de sedução, um estigma de quase divindade, um carisma que brilhava e entontecia, um poder capaz de amalgamar, a si, as multidões. 

Não sabemos e nunca saberemos quem foi Hitler – repito. Mas conhecemos (até onde a História consegue desvendar os factos) a pesada herança que ele deixou e o rasto de sangue inocente espalhado pelo mundo, provindo de uma nascente que tem a Alemanha como sede. Intriga-me este povo alemão, cujo estandarte foi, durante anos, a bandeira vermelha com a cruz suástica no centro, essa cruz de pontas reviradas, a querer alternar-se e, quem sabe, a substituir a cruz de Cristo, invertendo a sua mensagem. Poderá o povo alemão, hoje mesmo, perdoar-se, enquanto povo, por conter nas páginas da sua História semelhante obscenidade?

Objetar-se-á que os descendentes desses alemães, que à sombra de Hitler e de acordo com as suas diretivas, levaram a cabo uma das mais terríveis carnificinas (senão a mais terrível, se atendermos aos seus contornos específicos), nenhuma culpa têm de haverem nascido alemães e que não podem ser responsabilizados e votados ao ostracismo pelo simples facto da nacionalidade que o nascimento lhes outorgou. E contudo, creio que a semente nazi paira ainda no solo e nas células dos que vão sendo dados à luz, desde Hitler para cá (e talvez antes disso, pois pode muito bem acontecer que o próprio tenha herdado, enquanto estigma, o embrião maligno que o terreno fez proliferar.).

Apesar disso, há um outro mal, na História Universal e na história própria de cada um, um mal, decerto não colorido com o cromatismo virulento de uma suástica, um mal camuflado e mascarado de baços matizes, esse, que vingou e vinga na esteira dos grandes malfeitores, sem o qual eles não poderiam ter sido o que foram.

Sem dúvida, ninguém pensa que Hitler agiu sozinho e matou, com as suas próprias mãos, milhões de pessoas; logo, há todo um conjunto hierarquizado de personagens que, elevados por ele à categoria de adjuntos, colaboradores, funcionários, prosélitos, seguidores, simpatizantes, etc. lograram pôr em prática a hecatombe.

Muitos nomes são conhecidos e, dentre eles, alguns foram julgados e condenados, a posteriori. Mas, reflitamos: terão sido todos erradicados e com eles terá ido, para sempre, a semente do Mal, essa, cujo símbolo máximo poderá ter o nome de Hitler?

Hannah Arendt, na sua obre Eichmann em Jerusalém, um Relato sobre a Banalidade do Mal*, alude a um outro tipo de mal, não o absoluto, indisfarçável, aquele que coroa cabeças malévolas travestido, quantas vezes, de boas intenções ou então feito poder absoluto e logo prepotência. Esse mal, que ela carateriza como “banal”, não aparece nas personagens francamente monstruosas, mas subjaz aos gestos e atos de seres medíocres, quantas vezes trabalhadores e funcionários extremamente cumpridores, cujo defeito foi seguirem escrupulosa e fielmente as ordens do chefe.

Desse modo lhe apareceu Adolf Eichmann, em Israel, no ano de 1961, no julgamento que o condenou à morte por enforcamento. Hannah Arendt, repórter presente para escrever o relato do julgamento, não viu, naquele homem, sentado atrás de uma proteção de vidro, nenhuma das caraterísticas do assassino cruel e sanguinário que talvez esperasse, mas um apagado e calmo burocrata que afirmava ter apenas cumprido ordens! 

E esta condição, materializada no palco montado naquele tribunal e destinado a tornar-se uma cena de grande mediatismo, provou – e Hannah Arendt, defendeu convictamente a tese que resulta desta obra – que há uma banalidade inerente à perpetração de certos atos pérfidos e ainda que semelhante banalidade é mais comum do que poderá supor-se. Para que um Hitler – ou a materialização do mal radical – possa fazer vingar a sua linha assassina de conduta, necessário se torna a existência e o conluio de milhares de funcionários, como Eichmann, ou trabalhadores, como os guardas dos campos de concentração, ou cientistas e técnicos, como os estudiosos e fabricantes dos produtos destinados a matar os condenados e muitos mais, quem sabe o próprio povo alemão que, da janela das suas casas assistia, impávido, às saídas de milhares de homens, mulheres e crianças, rumo ao exílio, à prisão, à morte, ao desaparecimento súbito de pessoas que antes eram seus vizinhos ou amigos e de quem nunca mais ouviam falar e que talvez tivessem medo de procurar.

Esta característica banal, muito próxima da normalidade, que envolve os atos de obediência ou omissão, capaz de engendrar os piores crimes, alijando, contudo, de si a responsabilidade, pois o sujeito cumpriu apenas o seu dever, ou foi obrigada, vai desculpando e impelindo o mundo a tolerar hostes de pessoas pérfidas. 

Disse, no início, que a sociedade está vinculada a leis e que, seguindo-as, o cidadão coloca-se no polo do Bem enquanto a sua violação o atirará para as sendas do Mal. E contudo, as escrever estas frases simples, vejo-me inundada por uma cascata de dúvidas.

Serão boas as leis, só por serem, as leis? Cumprir o dever, só porque o superior assim o determina, tirará, àquele que cumpre a ordem de outro, a responsabilidade de responder por um erro, por um crime? Se a banalidade do mal estiver insinuada na natureza daquele que é honesto, zeloso, cumpridor, poderemos estar no mundo com a consciência tranquila e a mente esclarecida? Poderá quem quer que seja ser o juiz de uma causa, quando ele próprio não é imune à banalidade do vício – e, por isso, sabe distingui-lo da virtude – e jamais conseguirá sondar, até ao cerne, o íntimo daquele que vai julgar? Não seremos todos nós reféns e vítimas de outros tantos Eichmanns, que, de caneta em punho, ordenaram, arbitraria e cegamente, milhares de execuções, só porque assim estava inscrito no código deontológico da sua profissão e do seu cargo? Estaremos nós, que nos cremos bons, a salvo de cometer erros irrevogáveis e talvez crimes, só porque uma certa ordem hierárquica, estabelecida antes de nós, nos apresenta o seu decálogo? Será o mal uma condição ontológica ou metafísica, radicada no cerne do indivíduo, no seu ADN (ou na sua alma), ou o produto das circunstâncias históricas e políticas que, enquanto conjuntura, o fazem nascer e proliferar? Terá sido Hitler um monstro, um “demónio”, ou meramente o produto do seu tempo e logo o rosto visível do mal abstrato, que não sabemos se existe, enquanto tal?

No início de um novo ano, é uso apelarmos ao bem que existe em todos e em cada um e desejar que ele possa crescer, redimindo as criaturas e solvendo, por fim, problemas e males. Eis porque refletir um pouco sobre o mal que sobrepuja as nossas cabeças e tolda, em doze meses, o que auguramos em fervorosos auspícios, para termos que, incessantemente, exorcizar, me parece ser a tarefa humana mais urgente.

*Editora Tenacitas, Outubro de 2003


Trailer do filme Hannah Arendt, sobre o julgamento de Eichmann,

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