quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A VIDA MEDE-SE PELO NÚMERO DE ANOS?

SARA MAGALHÃES
O ano 2014 termina hoje e a maioria das pessoas expressa os seus desejos para o novo ano que se aproxima.

O que faz um ano ser bom ou mau? As expectativas que criamos, os sofrimentos que recusamos e batemos o pé, as alegrias que permanentemente queremos experienciar.

Neste ano que termina, percebi que a vida não é mais do que isto: vitórias, derrotas, perdas e choro, encontros, conversas, desespero, gargalhadas, cansaço, descanso, desabafos, loucuras, comer, passear, ler, ter medo, às vezes ter muito medo, ser grato e muito mais. Em cada ano que passa sou sempre eu a protagonista da minha história e dos meus dias. Sou eu que escolho, sou eu que decido o que sentir a cada situação que surge, mesmo que seja errada. 

Aprende muito errando. No entanto, a partir de uma certa altura começamos a sentir que a idade é um posto. Pode ser sinal de que as asneiras que fizemos, deram-nos mais conhecimento e experiência e que nos evitam alguns dissabores. Ate lá, coloca-se o pé em muitos galhos secos. Cai-se muitas vezes. Lambem-se muitas feridas. Não há mal nisso. Faz tudo parte do caminho. A pergunta que poderemos fazer quando caímos é: será que faz sentido fazer birra por termos caído? A vida diz que não, pois ela própria é composta de mudança. Fazer birra é estagnar. Se a vida não para, por haveríamos nós de parar? Não somos parte dela?

Pode acontecer estramos constantemente a meter o pé na poça sempre que experimentamos caminhos novos, apesar da idade. Mas até isso pode ser normal e saudável, até porque há sempre novas vertentes da vida a explorar. O que não será tão benéfico é escolher o mesmo caminho de sempre por termos receio de errar. Redescobrimo-nos a cada novo passo que damos noutra direção.

E será que temos que acertar à primeira ou acertar sempre? 

A vida não é assim. E se soubermos aceitar isso, poupamo-nos de muito sofrimento. Eu acredito que viemos aqui ou vivemos e existimos para viver experiências e não para acertar, mesmo quando acertamos em cheio. Vivemos e existimos para fazer caminho. E quem segue o caminho, muda todos os dias. Afinal, o importante é sempre o caminho. Não temos que ansiar por nada. Todos temos um a seguir; é apenas uma questão de nos sintonizarmos com ele.

E hoje termina mais um ano da minha vida, viro esta página e espero, com confiança, que possa viver mais 365 dias em sintonia com o meu caminho.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

DÚVIDAS QUE TRANSITAM DO ANO VELHO PARA O NOVO

REGINA SARDOEIRA
Nesta crónica, que será a última de 2014, decidi partilhar com os leitores um tema muito específico. E, se vou fazê-lo, é na medida em que, ao efetuar o balanço do meu ano, percebo que uma circunstância fez pender a sua nota valorativa para o lado negativo.

Enquanto professora, com maior ou menor sucesso junto dos alunos, sempre consegui levar as aulas a bom termo. E, se tive problemas, nas muitas turmas que me passaram à frente, de comportamento menos bom, de motivação diminuta, de aproveitamento mais reduzido, fui sendo capaz de equacionar as diversas situações e resolvê-las satisfatoriamente.

Porém, este ano letivo cujo primeiro período terminou, trouxe-me uma experiência absolutamente nova. Uma experiência que me abalou como nunca e me fez perder o controlo e o autocontrolo, deslizando para águas movediças, cuja profundidade e sentido não entendi ainda e provavelmente não chegarei a entender.

Creio que a função de um professor continua a ser ensinar. Ensinar, no sentido mais amplo do termo, pois, postados à frente, no meio, ou atrás dos alunos, nós, professores, vamos passando múltiplas mensagens, desde as que constam das planificações e dos currículos disciplinares, até às de caráter formativo, no contexto lato da pedagogia. Não sou capaz de dar uma aula, sabendo que um aluno, lá ao fundo, ou ao meio ou à minha frente está distraído e logo não absorve, minimamente, o que tenho para dar-lhe; preciso de ver a turma atenta, preciso de sentir que as minhas palavras atingem o auditório, preciso de sair da aula com a sensação de que alguma coisa aconteceu.

Como é óbvio, para obter este resultado, preciso de lutar. Tenho que inventar-me e reinventar-me, constantemente, e inventar e reinventar constantemente o modo de apresentar os assuntos e os próprios assuntos. E sei perfeitamente, tão perfeitamente que posso concretizar com os próprios exemplos, que houve aulas em que falhei, alunos e turmas a que não consegui chegar em pleno.

Mas nada me preparou para o grupo de 20 alunos que este ano letivo me coube em sorte. Nada, nem sequer o que, em anos passados, ia ouvindo de colegas, me pôs de sobreaviso em relação ao espírito deste punhado de jovens a quem devo lecionar Psicologia. Confesso que tudo o que fui ouvindo, em conversas de acaso, sobre este tipo específico de turmas e de alunos me pareceu sempre exagerado: eu não conseguia crer que numa escola habitassem jovens cujo único objetivo era impedir os professores de dar aulas, ter atitudes e comportamentos impróprios, estar ali, porque os obrigam, à revelia do seu próprio desejo, defraudando qualquer expectativa de sucesso mútuo.

Quando enfrentei aqueles alunos pela primeira vez, comecei a compreender, abriu-se um pequeno halo de luz ao fundo do túnel, vi que, realmente, tinha deparado com outro universo. 

Percebi, em primeiro lugar, que eles estavam ali à força, ou seja: até completarem a escolaridade obrigatória – 12º ano – ou até atingirem a maioridade civil, o estado obriga-os a ir à escola (“Se não viermos, a polícia vai buscar-nos a casa!”, disseram-me.). Entender esta realidade constituiu a minha primeira perplexidade.

Olhei para eles, um após outro: vi tédio, revolta, cansaço, desafio; e depois tomei consciência de eles serem uma espécie de exilados ou asilados, de certo modo banidos do designado ensino regular por falta de capacidade, motivação, ou tudo junto, e, arrumados naqueles cursos, classificados como “profissionais”, para, com mais facilidade e menos exigência conseguirem o diploma da escolaridade obrigatória completa. Esse certificado (e apenas isso) é tudo o que eles desejam (sem o desejarem de facto, já que são obrigados a tal) e é por ele que estão ali: aprender seja o que for, criar uma cumplicidade com o professor, de modo a enriquecerem-se reciprocamente, ocupar os minutos e as horas e os dias das aulas, de forma construtiva, em ordem à sua formação humana, e tudo o mais que leva o professor a programar uma aula e o aluno a apropriar-se dela, eis o que não lhes interessa minimamente.

Logo que fiz esta descoberta, esforcei-me, quis incutir-lhes algum estímulo, mandei vir os livros e criei os materiais, tentando fazer-lhes ver que a Psicologia, sendo o estudo do próprio eu, poderia dar-lhes indicações importantes para se compreenderem a si mesmos e ao mundo, onde inevitavelmente serão largados, mais tarde ou mais cedo.

Tarefa vã. Os livros estiolaram sobre as mesas e as palavras que usei para explicar-lhes os conteúdos, soaram no vazio de uma sala, ao mesmo tempo que os destinatários tentavam – com êxito – prestar atenção a todo um conjunto de estímulos (os telemóveis, a música, as brincadeiras, os risos, o pregar partidas, etc.), interrompendo constantemente a explicação, com palavreado inadequado, com pedidos para sair, com propostas para irem para outro lugar, porque estava calor ou frio, ou noutro sítio qualquer seria bem melhor…

Não quis castigá-los, expulsando-os da sala, porque essa não é uma tarefa simples e não surte qualquer resultado. Teria que chamar o funcionário, preencher uma ficha, enviá-los para o Gabinete de Apoio Disciplinar, onde novas fichas seriam preenchidas, pelos próprios expulsos e pelo professor ali destacado, fichas, a seguir, arquivadas, tempo passado, repreensões dadas, mas não assimiladas enquanto tal…não, esse não iria ser o meu caminho. E disse-lhes.

Expliquei-lhes, pacientemente, tudo o que precisava que eles me dessem, para que as aulas fizessem sentido; pedi ao diretor da escola que me coadjuvasse, com a sua autoridade e reforçasse, assim, a minha mensagem; desdobrei-me na criação de materiais, essencialmente audiovisuais e até comprei cadernos para que registassem os sumários e neles escrevessem apontamentos! Nada, mas absolutamente nada, mudou o espírito – obstinado em não aprender, tendente a desrespeitar a boa ordem, a manifestar repúdio pelas matérias, a pedir sempre para estar num sítio diferente – daquele conjunto de alunos!

Ainda por cima, os cursos profissionais, para nós, professores, são extremamente exigentes. Temos que elaborar o material e arquivá-lo, em pasta própria, recolher trabalhos feitos na aula e submetê-los de igual modo ao arquivo, elaborar um cronograma de aulas e uma planificação rigorosos que têm que ser seguidos à risca, sem uma falha – qualquer falta tem que ser reposta para que o cronograma se efetue, de facto – há uma plataforma informática onde temos que fazer o registo rigoroso dos sumários, das classificações, das faltas etc., para além de termos que manter em ordem o livro de ponto; no tempo certo e exato da conclusão de um módulo, temos que o registar nas sedes próprias (livro de ponto, programa informático) e a seguir elaborar uma prova, aplicá-la aos alunos, corrigir e dar-lhe as conhecer o resultado, pedir que façam a autoavaliação e a avaliação do professor…provavelmente haverá mais ainda que deve ser feito e que não consegui, até agora, absorver!

Enquanto tal decorre, da parte de quem leciona, do outro lado, a total e absoluta indiferença. Aprender? Não querem. Estar atentos nas aulas? Nem pensar. Comportarem-se devidamente, com educação e compostura? Não sabem, ou não querem. Tomar apontamentos, registar os sumários, fazer as consultas necessárias? Dá muito trabalho.

Durante os três meses do primeiro período, fui ter com aqueles alunos três dias por semana. Dei-lhes quase 60 aulas. Lecionei um dos três módulos que constituem o programa, apliquei a prova respetiva, informei-os dos resultados e classifiquei-os, iniciei o módulo seguinte e deixei-os ver filmes, uma vez (pedido renovado diariamente), ir para a biblioteca (porque está mais confortável) uma vez ou duas, e lutei todos os minutos de todas aquelas horas para que me escutassem, para que realizassem os trabalhos que lhes fui propondo, para que estivessem quietos e calados e se comportassem com educação.

Cheguei ao final do período a considerar-me vencida: não, não sou capaz de cumprir a minha função junto daqueles alunos, sei que apesar de lhes ter dado tantas aulas e tantos conteúdos nada ficou, naquelas cabeças ocupadas com outros objetivos, nada marcará a vida deles daqui para a frente só pelo facto de me terem tido, a mim, como professora de Psicologia.

Falando com colegas, também eles a lecionar este tipo de turmas, fui ouvindo dizer sempre o mesmo: eles não querem, não aprendem, não vale a pena! 

E eu, perplexa, sempre perplexa: e então, o que faço eu nas aulas? Deixo-os ver um filme sempre que me pedirem? Ouvir música? Conversar em alta voz e cantar e brincar, enquanto dura a aula? Faço de conta que aquilo é normal e deixo andar, enquanto sumario matéria que não dou (porque não posso) e lhes facilito os testes até ao máximo e permito que troquem impressões, uns com os outros, enquanto os fazem? Sento-me junto deles e jogo as cartas, ou oiço música ou canto e danço ou sei lá o quê (o sumário está feito, o cronograma cumpre-se, os papéis arquivam-se)? Com a consciência da minha incapacidade de os vencer, junto-me a eles e salvo a minha sanidade?

As férias chegarão ao termo dentro de dias. Daqui, exatamente, a uma semana, saberei que vou enfrentá-los no dia seguinte. Como farei a minha aparição naquela sala de aulas – um monobloco pré-fabricado (de que eles se queixam) já que a escola está em obras – de modo a manter a serenidade, de modo a não trair as minhas convicções, enquanto professora? 

Tenho pensado sobre o assunto e, de duas soluções possíveis, a nenhuma me apraz aderir: tento ser a professora normal que costumo ser e continuo a diligenciar ensinar-lhes Psicologia, sabendo que falharei, mas tentando, apesar de tudo, ou entro na atitude displicente que eles talvez desejem e deixo-os fazer tudo o que quiserem e o capricho lhes ditar, no exato momento da minha aula?

Escrevo estas reflexões e, ao mesmo tempo, vou meditando sobre o tempo e o mundo que engendrou esta situação. Percebo que a culpa não é deles, já que um sistema aberrante inventou uma obrigatoriedade de aprendizagem teórica, mesmo para quem talvez estivesse melhor a fazer qualquer outra coisa de útil. Se alguém pensa que os cursos profissionais são práticos, que se desengane rapidamente: o horário deles está repleto de matérias que exigem esforço de atenção, raciocínio abstrato, cálculo. Lá estão a Matemática, a Língua Portuguesa e a Estrangeira, a Psicologia e outras matérias que os fazem sentar a uma mesa e realizar tarefas de que foram dispensados, aparentemente, quando se inscreveram num Curso Profissional: não imagino que tipo de profissionais virão a ser aqueles jovens, absolutamente impreparados, num mundo onde mesmo os preparados não encontram profissão. Por outro lado questiono-me: e eu? Que estou ali a fazer com o meu arsenal de conhecimentos teórico-práticos e os temas da Psicologia, que reconheço tão apropriados ao cariz de tais alunos? Que faço eu ali? Qual o meu papel, no fim de contas? Se não posso ensinar, nem motivá-los para a aprendizagem, se nada produz o mínimo efeito e nem consigo que sintam por mim uma simples empatia – porque estou no caminho oposto ao que eles querem trilhar – por que razão continuarei a ir, dia a dia, semana a semana, para semelhante local de mútuo sacrifício?

Todos sabemos que a vida é dura. Todos sabemos que há missões difíceis. Todos sabemos que ser professor é um trabalho intenso, duro e quantas vezes rude. Eu, pelo menos, sei-o. Mas vencer os desafios da dureza, da dificuldade, da rudeza pode trazer a recompensa gratificante do resultado. E julgo que todos sabemos (eu, pelo menos, sei-o) que quando o nosso esforço dá frutos e os vemos acrescentados naqueles que nos são dados para educar, nunca mais pensamos na dor e no sacrifício, para nos deleitarmos apenas com a obra realizada. Porém, se durante três meses, bati invariavelmente contra uma parede que nada me devolveu e a quem nada consegui dar, se durante três meses pus a minha imaginação e capacidades à prova, para sentir, invariavelmente o sabor amargo da derrota, não será que alguma coisa de muito errado, e absurdo e até aberrante está a passar-se nestes ghettos que são os cursos profissionais que prendem os alunos a um cativeiro que eles não pediram e não desejam e os professores a uma luta sem tréguas e sem vitória à vista?

Continuo perplexa e não faço ideia como vou iniciar o novo ano e o novo período letivo, nesta circunstância específica da turma de ensino profissional que me foi distribuída. Dir-me-ão que tenho sorte: há quem lecione três, seis, sei lá quantas turmas deste jaez – ou pior, porque dizem-me que no ano anterior esta mesma turma, agora expurgada de 9 elementos muito mais perniciosos, deu ainda mais problemas – há quem o faça e sobreviva, mesmo admitindo que os alunos não querem saber de nada, mesmo saindo das aulas estonteados e exaustos e levando para casa o peso da frustração.

Todavia, continuo a perguntar: se sou professora e não consigo ensinar, se sou professora e não consigo motivar, para aprender, uma turma de 20 jovens, se me aconselham a desistir e a fazer o jogo deles, já que não há outro remédio…onde reside afinal o vício, o erro do sistema? Não em mim, decerto, que me encaminho para aquelas salas sempre com uma réstia de esperança; não nos alunos, sem dúvida, que se sentem enjaulados e coagidos a uma situação que não lhes apraz. A revisão tem que ser operada a outro nível, num plano onde as decisões globais se tomam e onde a adequação à realidade deve ser feita – para que a escolaridade obrigatória possa fazer sentido. Para que os jovens sintam que, apesar de incapazes ou desmotivados para as questões teóricas, há neles um manancial e uma reserva de habilidades práticas a serem explorados. Recuso-me a acreditar que sou incompetente, por não conseguir ensinar psicologia àqueles 20 alunos; mas também recuso dar-lhes o estatuto de imbecis ou de réprobos, desistindo da humanidade que há neles.

SONS E TRADIÇÕES

TERESA ALMEIDA SUBTIL
Ainda há rescaldo no Adro da Sé, apesar de já terem passado alguns dias desde que os carros de bois, carregados de lenha, desceram a rua dos Adis, passando em claro a primeiro de Maio, a minha. Vêm numa bolina impressionante e, quando se aproximam do café Porto, fazem uma curva em ângulo reto que arrepia quem gosta de ver todo este vigor e entusiasmo da rapaziada. Há um chefe, em cada ano, que levanta o ânimo usando a sua voz em máxima potência. Sim, quem puxa os carros são os destemidos rapazes, na força da vida! O frio corta-nos as orelhas, mas não arredamos pé! O chiadeiro neste ângulo deve ser o mais forte de todo o percurso. O eixo e as rodas chiam a bom chiar!

Vem-me todo este entusiasmo pela paisagem sonora duma palestra do investigador Mário Correia em S. Pedro da Siva, no dia treze deste mês de Dezembro, a propósito dos festejos do solstício de Inverno. A verdade é que bem sentimos tudo isto, mas se percebermos os fatores que concorrem para
que um som saia de forma irrepetível num determinado lugar, o caso ganha outra dimensão.

Já passaram alguns dias desde que os toros começaram a arder em frente à vetusta Sé desta linda cidade de Miranda do Douro. É impressionante a fogueira do galo! Como se nela ardessem todos os medos e a esperança renascesse! À volta as pessoas conversam a lenha vai ardendo. E as chispas registam no ar sons do outro mundo.

Todo este cenário, com o crepitar das brasas, na verdade fazem do Adro da Sé algo surreal e contribuem para o encantamento desta quadra festiva. Sai daquele imenso braseiro toda uma orquestra, digna do melhor compositor.

O investigador bem quereria pôr os microfones no centro do braseiro, mas tem que se contentar com os sons à volta da fogueira. As palavras também andam a rodopiar e devem ter uma melodia especial, depois da ceia de Natal. Palmadinhas nas costas, beijos e abraços são, afinal, os tons da amizade. É, também, o dia em que quem tem uma capa de honra mirandesa se apresenta cheio de "proua". Nem o Menino Jesus esquece a sua.

De dentro da Sé saem cantares de anjos, é certo, mas também algumas risadas incontidas. Não admira porque o Menino Jesus sempre teve cara de amigo, principalmente o Menino Jesus da Cartolinha que bem se vê que não pode com o riso. O riso vem dos céus, temos a certeza. E que falta nos faz em
qualquer paisagem sonora do dia a dia!

O adro não é o mesmo do resto do ano, muito menos os sons que mudam a cada momento. Não sabemos definir todo este encantamento da noite de Natal, como se as estrelas quisessem mudar de lugar e se mostrassem entre nós em todo o esplendor de luz e som.

Não faltarão a gaita de foles, a flauta pastoril, o realejo e os bombos da nossa terra. Miranda do Douro é uma terra musical e não pode haver festa sem os sons que lhe pertencem e lhe conferem identidade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

CELEBRATION

CATARINA DINIS
Ainda no ar, todo este ambiente natalício…e não podia deixar escapar de falar sobre as lendas, crenças e superstições que fazem parte do nosso património imaterial e que apela à compreensão dos modos de sentir e agir de um povo… e no Natal encontramos tantas histórias / Contos… desde o próprio nascimento de Jesus, a história da chegada dos Reis Magos, passando pela lenda do Pinheiro de Natal de Jean Baptiste Molière, a lenda da Rosa de Natal de Selma Lagerlof, a história do Sonho do Pai Natal….
Para finalizar, recomendo a leitura de uma bela lenda… a Lenda da Flor de Natal…

Lenda antiga
Autor desconhecido
Era uma vez, uma menina pobre chamada Pepita, que não podia oferecer um presente ao Menino Jesus na missa de Natal. Muito triste, contou ao seu primo Pedro, que ia com ela a caminho da igreja. Este disse-lhe que ela não tinha que estar triste, pois o que mais importa quando oferecemos algo a alguém, é o amor com que oferecemos, especialmente aos olhos de Jesus. Pepita lembrou-se então de ir recolhendo alguns ramos secos que ia encontrando pelo caminho, para lhe oferecer. Ao chegar à igreja, Pepita olha para os ramos que colheu e começa a chorar, pois acha esta oferenda muito pobre. Mesmo assim, decide oferecê-las com todo o seu amor. Entra na igreja e, quando deposita os ramos em frente à imagem do Menino Jesus, os ramos ganham uma cor vermelha brilhante, perante o espanto de toda a gente. Mais um milagre natalício, que se diz estar na origem da tradicional flor-de-Natal…”
A comemoração do Ano Novo varia de cultura para cultura mas universalmente a entrada do ano é festejada mesmo em diferentes datas.
O ano novo do calendário gregoriano começa no 1 de janeiro assim como no calendário romano graças ao imperador Júlio Cesar que fixou o 1º de janeiro como o dia de ano novo em 46 a.c.

A verdade é que hoje em dia marca o início do novo ano civil… Assim enquanto em Kiribati e Samoa são as primeiras a celebrar, Honolulu (Havai) é o ultimo local a comemorar a data, por isso são 24 h intensas de sonhos e tradições.

Na tradição portuguesa valoriza-se muito a festa de Ano Novo, devido ao desejo de renovação…. E uma das nossas tradições é sair às janelas de casa batendo com panelas para festejar a chegada do ano novo, também no 1º de janeiro é costume comer uma mistura feita com as sobras das ceias que são levadas ao forno, o ingrediente principal da chamada “ roupa velha” é o bacalhau cozido, com ovo, cebola e batatas regadas com azeite.

Mas o final de ano, o ano novo é muito mais do que estes costumes, é também uma forma de viver e sentir, uma forma de idealizar, sonhar, fazer novos projetos, abraçar uma nova vida…

O ano novo é o inicio de uma nova etapa, de novos desafios, mesmo que lá no fundo continuem igual…mas por uns instantes somos todos de novo os eternos “navegadores da ilusão” e somos felizes …
Por isso preparem as uvas passas e reformulem os vossos desejos…. 
Boas entradas !!!

domingo, 28 de dezembro de 2014

COLHEITA

MIGUEL GOMES
Aprofundo a textura da tarde quando, ao passar perto de umas leiras frescas, o nevoeiro que parece emanar da terra na respiração de cada torrão revolto pelo arado me traz à memória lembranças de árvore. Dizem, escuto, que as memórias das árvores as fazem imemoriais, portadoras de um tempo anelado, cunhado a âmbar em choro de resina. ´

O Sol de frente, em frente a uma estrada esburacada, faz-me conduzir de olhos semicerrados. Confundo-me na viagem, por entre eucaliptos, pinheiros e pestanas. Os electrões saem sobressaltados da minha frente quando se apercebem que vejo estrelas nas lentes sujas dos meus óculos.

Todo o caminho é estrada e, por ela, chegaremos ao instante seguinte da nossa vida, seja ele qual for. 
É fácil perder a razão e tornar um entardecer num reflexo negro de um céu nublado, enevoeirado, como as pessoas a quem faltam céus. 

Das indicações que sigo, algumas indicam caminhos para onde não quero ir e lá, onde quer que os caminhos os levem, não estarão os meus instantes, lá será futuro (ou agora passado) em que não existi. Existirá melhor almejar que orgulhar de infinito um local que se fez mundo por não termos lá estado? 

Todo o caminho é estrada, mas nem toda a estrada é caminho. Valha-me o letreiro gasto de lousa, a caixa de correio para três caixas de correio, uma espécie de matrioscar e partilhar remetentes num distinto destinatário, e o cemitério ladeado por sombras de uma tarde que se faz já tarde.

Não me faltam inícios. Pelo contrário, sobram-me inícios. Momentos em que comecei a escrever sobre o que tinha escrito, mentalmente apenas, como tudo deverá ser. 

Entro lentamente pela rotunda sem desviar os olhos do homem que comigo se cruza. O passo arrastado que arrasta vários ramos de árvores que não identifico. Serão lenha, como toda a árvore não colhida, lenha queimada, cinza, mas antes calor, fumo e amor. O chapéu cinzento parece ter sido urdido pelo outono, traz com ele ainda folhas que se fazem cabelo e por baixo deste uma cara castanha, escura, de onde pende um corpo franzino, coisa velha de menino. Há vestes, mas estas são coisa de quem se despe, este vulto caminha na convicção de chegar ao seu instante seguinte. A cada passo que deu, deduzo eu, que segui caminho contrário ao seu futuro, arfou o mesmo ar que um dia a terra transpirou. Imagino-o a continuar o mesmo percurso, a lenha a pender de si como longos braços arrastados pelo alcatrão, pelo empedrado, pelas camadas de detritos que se deitam sobre o chão. Há-de passar por outros, viaturas, criaturas, gentes de cigarro ao canto da boca, como quem namora e beija a morte, a silenciar a tarde com o que sentem de Sol, passar por entre curvas e rectas, soleiras de cafés de gentes sinceras, correctas, sobrolhos de quem se fez passado sem qualquer futuro, apenas um esperar agonizado e atrasado como este chapéu cinzento, cinzelado, em cima do muro.

Pousará os braços, a lenha também, será cortada quando o cansaço que o traz for menor que a vontade dos lábios molhar, o vinho serve também como ar em forma líquida numa hematose que se quer saboreada de olhos quase fechados, como quem conduz ao encontro do Sol.

A lenha cortada, não os braços, entra debruçada por cima da fuligem que cai de cada vez que o vento a corteja. Os fósforos zarparão sobre a áspera superfície e do nada (se é que ele existe) surgirá uma labareda, esta há-de ler as palavras que queima no jornal para já depois da pinha aberta, sem pinhões, fumegar aos céus como quem suspira e deixar arder lentamente, como quem se crepita, pinha e pinheiros, restos destes, tonas que é como quem diz cascas de eucalipto, pedaços de sobreiro e castanheiro. O lume irá crescer, creio, isto da fé é como acreditar que o fogo existe mesmo sem lhe sentir o calor, tal como o amor, a roupa empoeirada será sacudida, de um traje outro surgirá, uma ceroula amarelada, uma camisola interior suada, uma higiene que não tardará a ser higienizada quando a água, mesmo antes de ebulir, cair na tina e for aos poucos lavando corpo de gente. O lume, ainda ele, irá ver uma cama em forma de leito, aconchegando-o ao mesmo tempo que o fumo cativa a atenção para a perda dos sentidos e, sabe-se lá porque magia, adormecer enquanto a noite ainda não atravessou o dia. 

Só depois, bem depois, de o ver suspirar, momento em que o corpo se liberta da alma, descansado e ela, alma, volitando longe do calor e do frio, vai dizer-lhe que pode dormir é que o lume, o avisado, irá dormir também, fechando os olhos em brasa lentamente, como quem se apaga de uma jornada.

Pelo caminho ficaram canas secas de um milho não colhido, caras enrugadas pelo frio, o ondular de um rio. 
Sei que deveria ter existido nos momentos seguintes, fazendo-me futuro, mas o meu caminho tem estradas que desconheço e, por elas, cheguei a este instante da minha vida segurando ainda todos os momentos em que não existi e escolhendo, procurando, entre cinzas e leiras, o mais maduro sentimento para colher.

sábado, 27 de dezembro de 2014

PODIA SER NATAL

Hélder Barros
Cidade de Belém na Palestina, parte central da Cisjordânia, dia 25 de dezembro de 1981, nasce um menino de nome Jesus, filho de um casal humilde, José e Maria, ele bastante mais velho do que ela.

Deus entendeu na sua Infinita sabedoria, que o Mundo estava precisado de uma nova epifania, de uma presença física de Si na terra, uma revelação divina, tal o estado de degradação social, ambiental e política, a que a moderna civilização aportou. O caminho que o homem seguiu de um consumismo exacerbado, de ausência de valores humanos e religiosos, de destruição do meio ambiente de forma acelerada, assim o exigiam.

Deste modo, no inicio de Janeiro de 2014, Jesus saiu de casa de sua Mãe, com seu velho Pai já muito debilitado, partindo numa missão que tinha interiorizada, desde sempre. Estava no Mundo para tentar chamar os homens à razão, dado que à sua volta e contra tudo que foram os ensinamentos de seus pais e que a sua sabedoria Divina preconizava, o ódio, a mentira, a falsidade, tudo o que de pior a condição humana pode intentar, fazem parte da ecologia existencial contemporânea.

Os pais de Jesus aceitaram sem nenhuma condição esta sua partida, reconhecendo nele um enorme esforço de evangelização e de fazer acordar os homens para o Bem. No fundo, eles sentiam que nele habitava um alterego Divino, naquele ser frugal, que muito meditava e orava, um homem que viveu sempre com eles, ajudando ao sustento da casa, carreado de pensamentos positivos de Paz, de perdão e de esperança. 

Jesus partiu com dois amigos de infância que queriam viajar e que também estavam prenhes da sua vontade de Infinito, muito por obra dos ensinamentos e meditações que Jesus lhes foi transmitindo, sempre com enorme alegria e voluntarismo. Um chama-se Paulo, o outro, Pedro.

Seguiram em direção a um ponto de tensão entre os homens, junto da fronteira da Palestina com Israel, nos colonatos. Bem pregou Jesus para os primeiros, que sendo seguidores da religião muçulmana, bem se riram, vilipendiaram e apedrejaram Jesus e seus dois amigos. A corrida foi tal que tentaram passar a fronteira, mas foram detidos pelas tropas de Israel, que os correram a rajadas de metralhadora em direção aos seus pés, não adiantando o facto de Jesus falar em Paz. Para os militares de Israel, aqueles três homens humildemente vestidos, só poderiam ser terroristas suicidas, além disso, queriam pregar o Cristianismo...

Perseguidos e acossados por todos os lados, foram seguindo entre a Jordânia, Egipto e Líbia, até que depois de muitos meses de sofrimentos e de desaires físicos e psicológicos decidiram ir a Roma apelar ao Papa, Francisco I, no sentido de que a sua mensagem fosse ouvida e difundida, também pelo mais alto representante de Deus na terra.

Para isso, a única hipótese que tinham para atravessarem o mediterrâneo, seria a de seguirem a bordo de uma débil embarcação com emigrantes clandestinos que, decidiram, no limite da sua desesperança, fazer a longa e arriscada travessia em condições, verdadeiramente, subumanas. Foram sempre ostracizados pelos companheiros de viagem que, nunca os queriam ouvir, já não queriam mensagens divinas, mas apenas atingir solo europeu em segurança, no sentido de poderem sobreviver à pobreza e miséria em que viviam. Claro está que vencidos pela fome e doenças, foram morrendo alguns dos tripulantes, principalmente crianças e velhos que eram lançados borda fora, de modo a não estorvarem mais...

Chegados a Itália, informaram as autoridades portuárias e serviços de apoios aos refugiados que apenas pretendiam dirigir-se ao Vaticano para falarem com o líder da Igreja Católica, mas todos os apelos foram em vão. Desiludidos, tentaram escapar numa corrida furiosa, foram avisados com tiros para o ar, mas como continuaram a correr, os militares pensando que eram terroristas muçulmanos, abateram-nos pelas costas, desarmados, a 25 de dezembro de 2014, no dia em que Jesus faria 33 anos de vida.

As últimas palavras de Jesus ouvidas pelos militares que os alcançaram foram: “Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem e a mim que falhei esta missão que me atribuíste, não consegui chegar ao coração dos homens, eles já não acreditam no Natal... nem na Páscoa, andam distraídos a destruir a Tua obra; só mesmo Tu nos poderás salvar meu Pai e Deus do Mundo!”

Podia ser Natal

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

CHEGAR, VER E FAZER

GABRIEL VILAS BOAS
Ontem, enquanto esperava pelo tradicional almoço de Natal familiar, tropecei o olhar numa orgulhosa reportagem do JN sobre dez histórias da solidariedade que o jornal patrocinou ao longo de 2014. Fiquei surpreendido e feliz com aquilo que li. 

Cada uma daquelas histórias pareceu-me exemplar, pois ilustra aquilo que, no meu entender, deve ser a solidariedade. A fragilidade momentânea de alguém convocou os sentimentos mais nobres do jornalista, que aproveita a posição privilegiada que desfruta na sociedade para chamar atenção para o caso. O jornal, os amigos, conhecidos ou simplesmente os leitores “mexeram-se” e a situação alterou-se!

Um pormenor significativo nestas histórias de solidariedade foi o facto delas se terem estendido ao longo do ano e não se terem circunscrito à altura do Natal. Sempre achei que a solidariedade não tem hora nem data marcada no calendário. Ela deve existir sempre que necessária, o que, na maior parte dos casos, significa que se deve estender pelos meses anónimos dos ano. 

Para além do óbvio agradecimento das pessoas, alvo desta solidariedade mediática, retive o esforço que todas fizeram para não defraudar as expectativas que nelas depositaram quem os ajudou. Cada um, à sua maneira, procurou e conseguiu melhorar a sua situação, o que encheu de satisfação quem patrocinou esta segunda oportunidade. 

Estes finais felizes são muito importantes porque incentivam os mais céticos a ultrapassarem a barreira do egoísmo e da desconfiança, ao mesmo tempo que animam todos aqueles que fazem da solidariedade uma atividade corrente das ações.

Deixei para o fim a referência ao Jornal de Notícias, o verdadeiro dínamo destas ações de solidariedade. Um jornal também deve servir para isto. Fico muito satisfeito que o JN tenha organizado estas campanhas de solidariedade. Um jornal vende-nos diariamente histórias muito tristes, onde a miséria humana está quase sempre presente. Por vezes, fá-lo com indecoroso aproveitamento mediático da dor e desgraça alheias, todavia, com este gesto, o JN mostrou que a moral social que nos tenta inculcar não é apenas retórica natalícia. O jornal portuense usou o seu poder mediático, social e económico para nos dar a mais simples das lições: a solidariedade não se diz, faz-se.

Espero que o JN continue com estas ações solidárias; que as publicite para as ampliar e não para se vangloriar. A glória está em minorar o sofrimento alheio, permitindo que rapidamente aqueles a quem ajudámos não precisem mais do nosso apoio. 

Nos próximos meses continuaremos, infelizmente, a encontrar motivos para demonstrar a nossa solidariedade. Era bonito que alguns de nós, daqui por um ano, tivessem ajudado a escrever um final de feliz a algumas histórias dramáticas que nem sequer vêm no jornal.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

CARTA AO PAI NATAL

Querido Pai Natal,
ALINA SOUSA VAZ


Quando era criança apenas me concedias alguns presentes e todos aqueles que me destinavas chegavam na manhã de 25 bem cedo e tudo parecia ser mágico.

Hoje, não percebo porquê que as árvores das famílias, duas semanas antes, começam a encher-se de presentes e presentinhos, sim, porque ninguém pode ficar sem algo embrulhado. Dizem que é para alegrar o espírito conturbado da crise. Será? Outrora, em tempos das vacas gordas, a azáfama já acontecia. Eu diria que o nosso espírito consumidor está tão corrompido que mesmo o excesso é visto como o essencial e normal.

Hoje, a espera da meia-noite já se torna um suplício quando o jantar em família acontece à hora marcada. Então, engana-se as crianças, a abertura dos presentes acontece às 11 horas e o rasgar papel passa a ser a diversão da noite, quanto mais melhor!

Mas, Pai Natal, não te escrevo só para dizer que não entendo este espírito natalício em que o que parece contar é dar e receber prendas. Escrevo para dizer que algo me toca verdadeiramente, quando vejo e leio notícias como: - “2014 foi ano devastador para milhões de crianças”. Anthony Lake, diretor-executivo da UNICEF, disse que "foram mortas quando estudavam numa sala de aula ou dormiam na sua cama, ficaram órfãs, foram raptadas, torturadas, recrutadas, violadas e mesmo vendidas como escravas. Nunca na história recente tantas crianças foram sujeitas a uma brutalidade tão inqualificável".

Pai Natal ao ler estas palavras o meu coração de mãe não aguenta. Faz-me refletir sobre a importância desta quadra e que valores passar aos nossos filhos que apesar das crises e do pouco dinheiro vão tendo muito.

Andamos todos a fazer de conta e não encaramos os verdadeiros problemas de frente. Como podemos deixar este capitalismo exacerbado gerir as nossas vidas em todos os setores? Como pode o jogo de interesses, por parte de alguns, deixar de lado os direitos humanos e gerirem os países sem rumo? Como pode o fanatismo religioso controlar ideias e vontades do ser humano criando guerras sem paz à vista?

Por tudo isto, e não sendo desejo de miss, apenas pedia no sapatinho de todas as 230 milhões de crianças que vivem em países ou regiões afetadas por conflitos tranquilidade, escolas e alimento.

Pai Natal sei que andas atarefado, mas atende o meu pedido pois o meu coração de mãe não aguenta.

Abracinho.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

CRÓNICA DE NATAL

Há algum tempo que me tenho esforçado para fugir ao Natal, ignorando os chamamentos múltiplos de
REGINA SARDOEIRA
múltiplos interesses, no âmbito dos quais sou envolvida numa espécie de fúria coletiva que, num espaço/tempo fugaz, toma conta de tudo. Não fui capaz nunca de me escapar, houve sempre um motivo ou dois, uma festa ou duas, dois presentes ou três que me obrigaram a admitir a chegada desta época e a render-me a ela.

O Natal, em si mesmo, é uma celebração religiosa – e todos deviam saber disso. Uma celebração religiosa pela qual se comemora o nascimento do homem, tornado o símbolo maior de uma comunidade de crentes, um homem que, a crer em muitas narrativas, terá vindo salvar a humanidade do declínio engendrado no pecado, tomando-o sobre si na hora final do sacrifício. Um homem que, paradoxalmente, mas no rigor da crença, é Deus, assim mesmo, com letra maiúscula, o Único, o Verdadeiro, Aquele que criou o mundo e os homens e preside a todos os acontecimentos desde que o tempo é tempo. 

Não se sabe se, de facto, esse Homem-Deus nasceu no dia 24 de dezembro, há mesmo quem fale de tal improbabilidade, atendendo a narrações e interpretações históricas, nunca concluídas e nunca concludentes. Mas apesar de tantas e tão científicas dúvidas razoáveis, não trocaram (ainda?) esta data por outra qualquer, não emendaram a tradição (e agora essas quebras acontecem com regularidade!); daí que, quando dezembro se anuncia (ou muito antes) um certo espírito natalício desperte, cheio de vigor, e as ruas se encham de luzes, de música, de vibrações humanas, de uma certa energia bastante contagiosa que me leva a pensar: “Estarei errada, exatamente eu, por querer fugir ao Natal? Será esta onda de júbilo, estas palpitações de entusiasmo, esta gente em tumulto por avenidas e praças, acotovelando-se em lojas e arquejando ao peso de múltiplos embrulhos, a verdade do Natal e eu, afinal, uma réproba, a querer ignorar a euforia de toda uma cultura?”

Invariavelmente, cedo às luzes, ao pinheiro, ao presépio. Invariavelmente, monto, dentro de casa, o meu Natal. Invariavelmente, vou cumprindo a tradição e, se o faço, é sem meios-termos. Trata-se de comer determinadas iguarias, em família? Trata-se de comprar presentes e embrulhá-los, com capricho, para surpreender as pessoas próximas? Trata-se de penetrar no torvelinho das ruas enfeitadas e exclamar: “Bom Natal!”, sempre que cruzo com um amigo ou conhecido ou até um desconhecido qualquer que acabou de me servir um café? Então, se é para entrar no espírito comum, entro com o corpo todo e devoto-me a fazer o melhor de que sou capaz…e acabo por me esquecer da minha tentativa de fuga!

Porém, sei perfeitamente que no ano seguinte, a resistência ao Natal vai retornar, como sei que, por fim, acabarei rendida.
Há razões para a recusa, assim como há razões para a rendição.

Não vejo, no modo como é vivido o Natal, uma comemoração religiosa do aniversário do homem símbolo, do Homem-Deus, daquele que, enfim, deu a vida, 33 anos depois de ter nascido, pela salvação do mundo. Não vejo sucederem-se, um pouco por todo o lado, com predominância das igrejas e outros lugares de culto, cerimónias alusivas ao que é mais do que uma efeméride: porque se homenageia, prestando tributo, ao inspirador do maior fenómeno religioso de todos os tempos. E o que vejo, desencanta-me.

Correr, de loja em loja, adquirindo objetos para presentear familiares e amigos, é homenagear Jesus Cristo? Talvez pudesse sê-lo, se aquele que compra e oferece atribuísse a esse gesto uma simbologia religiosa, quero dizer: Jesus nasceu, eu festejo a data e, como ele não está fisicamente presente entre nós, ofereço uma prenda ao meu amigo ou ao meu irmão ou ao meu filho e faço-o no espírito daqueles que, na noite de 24 para 25 de dezembro se dirigiram à gruta, depositando aos pés do nascituro o que tinham de melhor. Fazer um banquete, e encher a mesa de iguarias, mais ou menos abundantes e requintadas, cometendo excessos de todo o género, poderá considerar-se uma homenagem a Jesus Cristo? Talvez pudesse sê-lo, caso as pessoas em volta da mesa tivessem em mente a mensagem integral daquele cujo aniversário é evocado.

Ora, eu julgo que, se acaso o Natal se rendesse à sua autêntica e literal significação, se acaso uma lei qualquer obrigasse os cidadãos a cumprir apenas o preceito religioso, eliminando o restante, cedo a festa seria esquecida e acabariam as luzes e as cores, o bulício e a corrida ao consumo e os banquetes e a luxúria das prendas e dos enfeites!

Esta contradição entre o significado literal de uma data e a metáfora hiperbólica do seu festejo exerce em mim um efeito de resultados ambíguos: por um lado, perdi o hábito de ir à Igreja e ali homenagear o símbolo religioso em cuja prática me educaram; por outro, não consigo imbuir-me do consumismo desenfreado das prendas e dos enfeites. Se desejo Feliz Natal aos amigos, faço-o na medida em que me parece ser isso que eles esperam de mim, ou então para corresponder à respetiva saudação; mas nem sempre sei perfeitamente o que significam estas palavras e este desejo de felicidade objetivados num dia, em que se celebra o aniversário de Jesus Cristo! 

Tudo isto me ocorre, é claro, porque faz parte de mim refletir sobre significados, porque desde que me conheço sou, acima de tudo, guiada pela coerência entre as palavras e os atos, os atos e os símbolos, os símbolos e os ritos. Nunca realizo seja que empreendimento for apenas porque é hábito ou porque todos o fazem, ou porque a cultura o estabeleceu e a sociedade o estimula: para mim, estes motivos não são suficientes, é necessário que do meu ser mais íntimo se desprenda a convicção, o sentimento, a vontade de fazer uma festa, manifestar um desejo, pronunciar um voto. 

Se, de mim para o exterior de mim, brotar o desejo de celebrar e se todos à minha volta também o fizerem, não preciso de ser invulgar, recusando fazer o que todos fazem. Se sentir que enviar um desejo de Boas Festas ou oferecer um presente de Natal tem um significado intrínseco à minha natureza e provém de um sentimento genuíno, correrei as lojas até encontrar o que pretendo ou construi-lo-ei com a minha própria mão! Mas correr por correr, dar por dar, festejar porque o calendário a tal obriga, comer isto ou aquilo porque a tradição se tornou lei…apenas muito a custo entro nesse espírito!

Não critico o Natal consumista, o Natal do comércio, o Natal da exibição, o Natal do espírito de família. Não me interessa tecer semelhantes críticas, porque vejo bem que, lá no fundo, qualquer um sabe a verdade sobre a sua participação em tão alienantes celebrações. Qualquer um sente o vazio ou o tédio ou a impaciência dos atos a que é obrigado nesta festa que a tradição não perdoa, e qualquer um pode perceber à saciedade que, no dia seguinte à festividade, a vida retoma o seu curso, profanamente, tal como era dantes. E o Natal é imediatamente esquecido e adiado.

O que impressiona a minha mente, aberta e lúcida, tanto quanto pode sê-lo uma mente humana, neste mundo de humanos, é a incoerência, o paradoxo, o embuste nos quais alinhamos todos, ano após ano, falando em Natal, ouvindo Natal, gritando Natal, explodindo Natal pelas ruas, pelas casas e em toda a parte…mas esquecidos do motivo principal e talvez único da comemoração festiva. E custa-me pensar que, se esse homem nasceu nesse dia, há mais de dois mil anos, com o desígnio trágico de permitir o sacrifício da sua própria vida em prol de todos os homens, ninguém o tenha de facto entendido, até hoje, e nada na humanidade me pareça apresentar o menor sinal de haver sido salva. 

Salvos, estes homens e mulheres em correria insensata para nenhures, mas ávidos de benefícios materiais? Salvos, estes arrogantes de cabeça levantada e ventre inchado, clamando recompensas, exigindo direitos? Salva, esta raça demente, destruindo- se e destruindo o seu mundo numa irracionalidade tanto mais insana quanto se crê racional? Salva, esta humanidade mesquinha e auto complacente, separada em indivíduos egoístas, crentes apenas na verdade por si engendrada e atirada ao vento?

Não, Jesus nasceu e tornou-se Cristo, a sua mensagem anda por aí, inscrita nos livros e pregada nos templos. Mas não vingou nem se realizou a esperada salvação, não surtiu efeito o nascimento pobre da criança e o sacrifício sangrento no Calvário. E passaram mais de dois milénios!

No entanto, continuamos a festejar o Natal e a desejar felicidades e a cumprir a tradição dos presentes e das iguarias e até parece, de vez em quando, que a luz vai mesmo brotar do fundo da consciência dos homens e que nada será igual daí em diante! 

As minhas palavras finais desta crónica de Natal serão estas: oxalá que, de Natal em Natal e de luz em luz, ano após ano, século após século, a estrela expluda no âmago dos homens e o único e verdadeiro Natal possa, por fim, acontecer, salvando-nos e cumprindo a profecia que estava inscrita no destino do longínquo nascituro de Belém.

Bob Dylan - Little Drummer Boy

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

NATAL, MEXILHÕES E OBRIGAÇÕES

Pois é, fim do ano, início das festas natalícias ! … de todas elas e de todos os tipos, géneros e espécies …
CLARA CORREIA
pois que as há para todos os gostos, embora, como noutros contextos, se possa concluir que “vira o gosto e toca o mesmo”; toca o mesmo, por exemplo, no que toca aos tons rubros e áureos a dourar, não a pílula da desatenção mais ou menos assumida nos outros trezentos e tal dias do ano, mas, quantas vezes, a dourar a pílula da obrigação mais ou menos exibida na cauda do mesmo, que é como quem diz, neste último mês mal “pesado” … a passar enquanto o diabo esfrega um olho para os que sentem o peso da saudade de quem só vêem no Natal, vá lá o diabo saber porquê, porque nesta dita “crise”, mingam os feriados, quanto mais as folgas, sejam de Natal ou de visita papal e, por isso, as reuniões familiares e ceias natalícias podem, a bem dizer, ser como o Natal … quando um homem quiser, desde que não seja mais “mexilhão” do que homem e, portanto, menos sujeito à míngua dos feriados laborais; e “viva o velho” por poder laborar nem que seja a estagiar, para as estatísticas nacionais do emprego ajudar. Mas, voltando aos “tons rubros e áureos”, estes estão omnipresentes na insidiosa sugestão de presentes, prazeirosos ou obrigatórios, ao “mexilhão”! … e aqui voltamos à renovada designação oficial, quiçá obrigação imposta, não pelo AO, mas na AR, para “Zé Povinho”; ora, este, ou seja, nós todos, até nos sentimos assim como que mais europeus, e logo da capital europeia mais badalada nos noticiários, Bruxelas! … ou não fossem os mexilhões tão popularmente comidos por lá, por acaso exactamente como nós somos … enfim, adiante! Resistente a palavrões, raios, coriscos e demais fenómenos climáticos, é esta “crise”, ao que parece, mais eterna do que o reino dos céus para quem cumpre, sem religião nem vocação, a tradicional obrigação da natalícia e familiar reunião; pois a “crise” eterniza-se, sobretudo, ao próprio conceito, pois que, até etimologicamente, uma crise anuncia, mais tarde ou mais cedo, uma inevitável mudança, o que significa que esta já teria tido obrigação de ter obrigado aquela a aliviar-nos a nós, “mexilhões”, de tantas obrigações para a obrigar a zarpar deste nosso cantinho que, mesmo no pino do Inverno, é de tal forma belo … que até a “créme de la créme” europeia, em Bruxelas, se lembra sempre dele como se a ele pertencesse … assim um bocado como nós, velhos mas, numa ilustre boca, sempre renovados “mexilhões”, fomos lembrados na AR, num discurso natalício, evidentemente, de tão comovente. 
Bom Natal!

domingo, 21 de dezembro de 2014

NATIVIDADE

MIGUEL GOMES
Começo a não caber dentro de mim.

A quantidade de vida que me mergulha nos olhos, a cada instante, faz-me sentir inundado por coisas, locais e seres que ainda não conheci, levando-me a correr por aí sem sair daqui, a provar sabores que, desconfio, provarei apenas sem este casulo.

De real o Sol, o Ar, o espaço onde volito, a cara nua de quem se sabe ninguém, as linhas escancaradas às portas das palavras que choveram. 

um mundo, além do meu, do teu, onde o Sol é da cor da chuva e a neve cai de cada vez que sorris, um local feito de abraços e de silêncios, porque ninguém ousa falar palavras que não conhece, nem ninguém conhece o real, do Sol, do Ar, do espaço onde volito.

Há um pouco do que sou perdido pelos muitos lugares onde não estive. Locais que guardam os olhares que ainda não li. Há uma falta imensa de mundo nas pessoas, que as faz correr sem se saberem em casa. Uma indiferença que não lhes permite ouvir a chuva que cai, em qualquer local, e sentirem frio sem saberem porquê.

Cobre-me um manto branco que poderia ser neve, mas é apenas o véu liso, que cheira a arruda, com que me tapo quando sei que sonho. 

Vou tacteando as pessoas, a medo, como quem reconhece um caminho pelas rugas e tufos de musgo nos muros que fazem o nosso caminho. 

Há caminhos que desaguam em paredes de madeira, em caras aquecidas pelo braseiro, nas mãos que seguram uma fumegante caneca de café e de amizade.

A distância que nos eleva à saudade é a que dista dos olhos ao que não vemos, no entanto, de olhos fechados, tocamos e sentimos aqueles que amamos, pois percebemos que tudo o que somos, somos porque eles são em nós, de formas explicáveis apenas com o sorriso aberto quando os fechamos, os olhos, e sentimos a brisa deles a passar por nós. Ninguém é de ninguém. Ninguém se separa, somos todos Um.
Até o tempo conspira ao correr à minha volta, sem me deixar prender as mãos e escrever-lhe nos ombros o peso que me carrega...

É o desassossego que me faz ver ao longe os carros que se aproximam, enrolando seus vassalos o fio de ariadne que os guia ao local de onde se pariram, as aldeias velhas, os muros desassossegados, as geadas e as neves, os testos que tilintam ao som do vapor das panelas, a lareira, os risos, a felicidade de onde nunca deveríamos ter saído.

É Natal.
Todos os dias.
Vou dormir, agora, de uma ponta à outra de mim, sabendo que no momento que fechar os olhos terei já este eu que me habita ao longo das estrelas, saltando de mundos em mundos, com a liberdade que procuro nas mãos, nas palavras que polvilho, nas entrelinhas que me conduzem a todos os abraços que dei ao universo. 
Sou este eu que me habita. 
Completo.

sábado, 20 de dezembro de 2014

TERRA- PORTAL DE VIDA, PLANETA DO HOMEM

Convido a todos a ler esta reflexão sobre o Universo que faz José Emanuel Queirós. É este um exercício que implica um esforço da nossa parte: o reconhecimento de uma realidade que justifica a nossa existência. Esta viagem que o autor propõe ao encontro do planeta “Terra” pode ser o início de uma experiência que nos ajude a compreender melhor a razão da nossa existência. Não tenham medo, pois para esta viagem é preciso libertar a nossa mente dos princípios e leis que transformaram o Universo num sistema reducionista e sem nexo. Venham daí e… boa viagem! António Luis Crespí (UTAD)
Mesa que presidiu ao evento «TERRA - Portal de Vida, Planeta do Homem», com Joaquim Pinheiro [ao centro] (Presidente do Agrupamento de Freguesias de Amarante), Prof. Doutor António Luis Crespí [dt.] (UTAD) e J. Emanuel Queirós [esq.] (autor) Foto: DR

J. Emanuel Queirós
DR
No intervalo de tempo que o Universo consagrou o Caos ao espaço sem fim e dotou de ordem a matéria do Cosmos impregnando-a de Vida, todos estamos com a Terra envolvidos num processo de apuramento subtil, global e grandioso, individual e comum.

Enquanto tudo se afigura estático e parece submetido a um propósito civilizacional presente, perfeitamente centrado na Terra e desligado do Universo, decorrem no cósmico endereço planetário tempos insuspeitos de mudança e evolução, indiferentes às cronologias da civilização, aos arquétipos sócio-culturais e aos dogmas humanos. 

Tudo está submetido à condição de uma permanente transformação. De um caos original para uma ordem consequente, tudo está em alinhamento entre uma singularidade e a sua pluralidade, entre um início e um recomeço interminável que progride numa continuidade transformante e na forma de ruptura da própria progressão linear. 

Desde o princípio de tudo o que é material e imaterial, das mais inacessíveis profundezas terrestres ao subtil manto magnético envolvente, dos domínios do conhecimento e da inteligência à ressonância da intuição e da consciência humana, tudo está em incessante estado de alteração atraído por um princípio ordenador universal.

A cada Primavera o grandioso cenário terrestre oferece-se renovado numa aparente repetição cíclica que se eterniza, feito de paisagens erigidas num longo curso astronómico percorrido sem retorno, progressivo e irrepetível. 

O dinamismo planetário para que estamos convocados a participar como actores terrenos, em representação directa e consciente, é ininterrupto, perene e surpreendentemente discreto. Toma configuração perceptível tanto nas inclementes perturbações terrestres, como nos actos excessivos e sem norte reflectidos nas tormentas incontidas da Humanidade.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

UM PRESENTE DE NATAL

GABRIEL VILAS BOAS
A uma semana do Natal, Estados Unidos e Cuba trocaram postais de Boas Festas, em forma de libertação de presos e reataram relações cortadas há mais de cinquenta anos. 

Timidamente, dois homens simples mas bons, como são Raúl Castro e Obama, entenderam o óbvio: este muro em forma de embargo não fazia sentido nenhum, há décadas. Ainda que nos respetivos países haja quem cultive o ressentimento das injustiças do passado, os presidentes dos dois países resolveram começar a reescrever a História, reatando relações.

Para já, pequenos passos, como um namoro desejado mas cujo passado de ódio entre as duas “famílias”, não permite declarações muito apaixonadas no início.

Obama anunciou o restabelecimento das relações diplomáticas, a facilitação das viagens de americanos a Cuba (na verdade, o regresso de muitos cubanos a casa), a autorização de venda e exportação de produtos americanos para Cuba e a intenção de ajudar os cubanos a ter um melhor acesso à internet.

Raúl Castro respondeu-lhe com um postal não menos carinhoso. Libertou um preso americano e afirmou as profundas diferenças entre os dois países em temas como os direitos humanos, democracia, política externa e soberania nacional, mas acrescentou algo de verdadeiramente assinalável: “Reafirmo a nossa vontade de dialogar sobre esses temas. Devemos aprender a arte de conviver de forma civilizada com as nossas diferenças”.

Parecia o Papa Francisco a falar. E talvez tenha sido, pois foi o seu discreto, mas decisivo labor que permitiu este acordo. Um dia após o seu aniversário, o Papa mais querido do último século recebeu como presente este sinal de paz para o qual trabalhou durante um ano.

Francisco e Obama, entre a poeira dos interesses e do politicamente correto, vão fazendo… Quando os seus discursos e ações não arrebatam os corações dos renitentes de modo avassalador que os levem a decisões, eles não desistem. Procuram atingir o objetivo doutro modo ou entretanto preparam as circunstâncias para que ele seja alcançado por outros.

Volto a Cuba e aos EUA. O destino dos povos é a paz, as relações cordiais. Haverá sempre acontecimentos negativos marcantes, momentos em que a ambição de uns ou a intolerância de outros se sobrepõe a este bem maior que é a Paz, no entanto, o Tempo encarrega-se quase sempre de fazer sobressair o essencial. 

Do norte ao sul da América sopra uma brisa doce e agradável que torna este Natal mais feliz para milhões de pessoas. Eu sou uma delas!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

PARTILHA

ANABELA BORGES
Aproximando-se a época das Festas, apetece-me partilhar um texto de uma aluna, uma menina de 14 anos, que tão bem escreveu sobre o saber estar no mundo. Esta é a sua tenra visão, que é também, atendendo à idade, reveladora de uma certa maturidade, e, sobretudo, de uma ânsia de partilha, a que ela chama (palavra linda) de “repartir”. Aqui vos deixo o texto da Diana:

“A Terra apresenta todas as condições necessárias para que todos possam viver felizes e sem carência de alimentos [baseia-se aqui numa citação de Gandhi]. No entanto, o mundo nunca foi, não é, nem nunca será, um lugar fácil. O sofrimento, a dor e a fome de alguns continuarão a persistir sobre as nossas cabeças. Só que nem todos queremos ver.

A desigualdade social existe, e por mais que tentemos evitá-la, fechando os olhos para não vermos o que nos rodeia, ela continuará lá.

Pergunto, referindo-me aos líderes mundiais, políticos e não só, por que razão existem pessoas tão ricas e outras tão pobres? Por que é que determinadas pessoas vivem tão desafogadamente, sem privações de carácter material, nem essenciais à sua sobrevivência, e a outras falta quase tudo, senão tudo?   

Com isto não quero, de forma alguma, dizer que não haja pessoas infelizes com todo o tipo de abundância, e outras muito felizes com muito pouco. Mas sem nada? Como é possível ser-se feliz sem um tecto, ser feliz com fome? Há ali um vazio muito grande, difícil de preencher. A pobreza é como um poço sem fundo.

O mundo é um lugar belo, lá isso é verdade, mas significará isso que não podemos torná-lo num lugar melhor? Claro que não. Mas, para o tornarmos num lugar melhor, não chega  somente esta minha pequena voz. É necessário que todos comecemos a remar para o mesmo lado, no que toca à erradicação da pobreza. São necessárias muitas vozes, vozes que ecoem pelo hemisfério num grito sem fim. Assim, quando uma onda mais forte vier, não irá arrastar-nos para o fundo, pois iremos, juntos, avançá-la.

Vamos “repartir” o mundo!

É preciso muito para acabar com a fome, aquela que vemos a descoberto e aquela que muitas janelas escondem.”


Com a devida vénia à jovem autora deste artigo de opinião, aqui deixo as suas jovens ideias para reflexão.

“TERRA: PORTAL DE VIDA, PLANETA DO HOMEM” - LANÇAMENTO

J. EMANUEL QUEIRÓS 
Realizar-se-á amanhã, dia 19 de dezembro, pelas 21 horas, no auditório da sede do Agrupamento de
Freguesias de Amarante, (antiga Junta de Freguesia de São Gonçalo) sito na Rua Miguel Bombarda – Amarante, a apresentação da obra - «Terra: Portal de Vida, Planeta do Homem», de José Emanuel Queirós. A sessão contará com a participação do Prof. Doutor António Luis Crespí ,Director do Jardim Botânico da UTAD e autor do prefácio, tendo a seu cargo a apresentação do livro.
“Sem a pretensão de um trabalho académico, J. Emanuel Queirós contribuiu para a divulgação do conhecimento da Terra no encontro à sua própria expressão de Vida à escala planetária. O resultado vai na perspectiva de melhor podermos harmonizar a existência desfrutando do tempo presente sem comprometer o futuro reservado ao astro e à sua Humanidade”.

A BIRD divulga, em primeira mão, alguns dos excertos que poderá encontrar nesta mais recente obra do escritor amarantino.

A cada Primavera o grandioso cenário terrestre oferece-se renovado numa aparente repetição cíclica que se
eterniza, feito de paisagens erigidas num longo curso astronómico percorrido sem retorno, progressivo e irrepetível. (pp10)

Tudo o que existe teve uma causa e resultou de um começo irreprimível, em superação, transcendendo um particular estádio físico inicial. O planeta Terra, tal como o Sistema Solar e a Via Láctea, como parte integrante do Universo também teve a sua origem, muito remota, mas não há certeza absoluta como ocorreu. (pp16)

O esferóide terrestre é um minúsculo lugar em trânsito orbitando pelo Sol na imensidão do Universo. Aparenta constituir um insignificante endereço cosmonáutico esquecido na periferia da Via Láctea, improvável no seio do espaço vazio e desolado de que se faz o Cosmos, mas é pleno de dinamismo e fremente de vida. (pp 29)

Tanto quanto a incessante procura de conhecimento permite desvendar à compreensão humana, em síntese, a Terra é um planeta incomum, fervilhante de vida, flutuando iluminado e aquecido por uma estrela nas profundezas abissais da escura tela do Universo. (pp 34)

A Terra é um ventre uterino e uma maternidade do Cosmos. O planeta é um berço, lar e sustento para toda a sua vida biológica. (pp 36)

O homem parece encontrar-se no Mundo percorrendo uma via existencial impositiva, de sentido único, capacitando-se para dominar todas as adversidades exteriores a si mesmo, ora pelo recurso à força, ora ancorado no poder do intelecto. (pp 49)

O comportamento do homem e a conduta globalmente adoptada pela civilização deixaram de tomar uma perspectiva integrada tendendo a adequar as condições do meio ao seu mais imediato interesse, passando a ousar de uma aparente supremacia sobre toda a ordem natural estabelecida na Terra. (pp 74)

Nos tempos presentes tomamos parte de uma sociedade orientada pelo progresso científico-tecnológico construído sobre a contingência variável da fenomenologia do risco, como processo gerador de transformação e razão de conhecimento. No entanto, os nossos destinos individuais e colectivos estão circunscritos aos limites impostos por leis da Física expressas  globalmente na organicidade da Terra e, em particular, nas dinâmicas que a Natureza desenvolve e processa. (pp 77)

A Terra é um poderoso organismo astro-planetário,relativamente frágil e instável. Pleno de vida em evolução e de recursos finitos em decréscimo, o planeta é propenso a surpreender o curso da história pelo desencadeamento de dinâmicas naturais imprevisíveis. (pp 90)

A Terra reflecte sobre si todas as alterações que opera no ecossistema terrestre, marcas da instabilidade impulsionada pelo dinamismo astronómico processado no espaço sideral e no meio ambiental do planeta. (pp 103)

Construtores de um Mundo de sentido equívoco e testemunhas integralmente comprometidas com as suas imparáveis dinâmicas, em circunstância alguma deste ínterim poderemos permanecer acríticos, convencidos do sentido trilhado pelo homem para a Humanidade e do empreendimento civilizacional adicionado à nossa casa-Mãe Terra. (pp 109)


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

DO TEMPO OU DA FALTA DELE…

PAULO SANTOS SILVA
Todos os anos, por esta altura, o cenário se repete. A azáfama instala-se na vida de qualquer professor,
nomeadamente na vida de um professor de Educação Musical. A juntar ao trabalho que todos os professores desenvolvem por estas alturas, surgem as atividades de final de período que envolvem, em muitas escolas, as Festas de Natal.

Recuando alguns anos até à minha infância, dou comigo a relembrar como eram as Festas de Natal desses tempos.
Do pré-escolar que frequentei por três anos, recordo vagamente algumas festas em que cantávamos algumas canções das quais já não guardo memória.

Da escola primária (era esta a denominação usada e que, curiosamente, ainda hoje se ouve recorrentemente), ainda são menos as memórias. Aliás a única que guardo de uma festa, foi no final da 4ª Classe. Data dessa festa, a minha primeira apresentação pública a cantar – o tema da Abelha Maia. Deprimente… Quanto ao mais, o último dia de aulas antes das férias do Natal, era dedicado a ver uns diapositivos da história “A Galinha dos Ovos de Ouro”, sendo a mesma narrada pelo professor que nesse dia abandonava a sua capa de austeridade e revelava a sua faceta de ser humano. Que a tinha.

Do ciclo preparatório, a receita era sempre a mesma – alunos todos no ginásio, os que não conseguiam “escapar” porque eram alunos do Prof. César de Morais (insigne professor, músico e compositor portuense já desaparecido e a quem seguramente dedicarei um dia, uma crónica), iam para o palco cantar temas de Natal. A seguir, cinema. Um filme que, como não poderia deixar de ser numa escola, seria de caráter pedagógico. Seria, mas não sei bem porquê, naquela altura e naquela escola não era. A menos que “O Regresso do Inspetor Martelada”, protagonizado pelo inconfundível Bud Spencer tivesse ensinamentos que fossem além da pancadaria generalizada que, eu confesso, nunca descobri. Mas pronto, como era uma comédia, a petizada (gosto deste termo…) ficava deliciada.

Ao desfiar estas memórias, dou comigo a refletir em como as coisas são diferentes hoje em dia. Claro está, que na altura não havia a tremenda quantidade de recursos que existe hoje em dia e que permite que “à distância de um click”, se encontrem inúmeras canções para ensinar às crianças, ou versões instrumentais de outras que se podem adaptar à quadra. Tudo depende hoje em dia da vontade de fazer porque meios e opções, não faltam.


Regressando ao título da crónica e ao tempo que estas atividades nos ocupam, na sua idealização, preparação e execução, direi apenas que são as horas do nosso trabalho melhor remuneradas. Parece um contrassenso mas na verdade não é, porque os sorrisos, a cara de felicidade dos alunos e o prazer que retiramos de ver o reconhecimento do nosso empenho, por parte daqueles a quem ele se dirige – os alunos – é a maior recompensa que podemos receber. E isso, não há nada que pague!!!      

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

BLOWIN’ IN THE WIND – I PARTE

REGINA SARDOEIRA
Blowin’ in the wind* é um poema-canção susceptível de ser tratado filosoficamente, na exacta medida em que, na aparente simplicidade da sua linha condutora, nos remete para o questionar fundamental da humanidade, sem contudo fornecer a menor sombra de resposta.
Deixando de lado, temporariamente, o aspecto lírico-musical, para nos concentrarmos no seu sentido intrínseco, percebemos de que modo este texto pôde tornar-se um hino, as palavras proféticas da voz de uma geração, no contexto temporal em que foi composto, na especificidade concreta do espaço social e físico em que se enquadrou (1962, EUA); mas entendemos ainda a peculiaridade que pôde transformá-lo numa obra perene, muito para além da mensagem de protesto, do grito inflamado de um jovem dirigido às consciências perras do seu tempo. É simultaneamente compreensível e paradoxal que o seu autor houvesse recusado, desde aquela época até aos dias de hoje, o título de «voz de uma geração» ou de «profeta» e demais epítetos com que o rotularam e são conhecidos até à saciedade. É compreensível na justa medida em que aceitar ser o porta-voz de uma geração quando se tem pouco mais de vinte anos e todo um caminho pessoal a percorrer, ver-se amarrado a um título, honorário e vitalício, e assumi-lo seria a sua própria condenação, seria deixar pender às costas uma espécie de cruz de martírio e ter que nela dar a vida pela geração de quem concordaria ser a voz; mas é paradoxal se atendermos ao carácter radical das questões que o poema enuncia, se absorvermos que o seu autor era um jovem e que as palavras lhe brotaram, exatamente assim, do fundo do ser para a folha de papel.
São nove perguntas ou, por outro lado, nove acusações, se quisermos desde já aceitar que Bob Dylan intentava com elas dar corpo a uma forma de protesto; e, contudo, a resposta vai ressoando no vento, é inefável, flutuante, efémera, inalcançável e subtil, não é para ser dada, ou então é fluida, dispersa como as rajadas que a levantam no exato instante em que parecia que a havíamos recolhido.

Quantas estradas deve um homem calcorrear/Antes que lhe chamem um homem? / Por quantos mares deve a pomba branca navegar/ Antes de poder dormir na areia? / Quantas vezes terão que voar as balas dos canhões/ Antes que sejam banidos para sempre?
Quantos anos pode existir uma montanha/ Antes de ser lavada pelo mar? /Quantos anos podem certas pessoas existir/ Antes de lhes ser permitida a liberdade? / Quantas vezes pode um homem virar a cabeça/ Fingindo que não está a ver?
Quantas vezes deve um homem olhar para o alto/ Antes de poder ver o céu? / Quantas orelhas deve um homem possuir/ Antes de ouvir os homens gritar? / Quantas mortes haverá até que ele saiba/ Que já morreram demasiadas pessoas?
A resposta, meu amigo, vai ressoando no vento/ A resposta vai ressoando no vento.

Não é possível empreender a análise de um texto (ao qual retirámos, nas linhas da tradução, uma parte substancial da sua matéria musical e poética) se não intentarmos perceber onde pretende o autor chegar, o que quer atingir, que efeito visa produzir nos que vão lê-lo, ou neste caso concreto, ouvi-lo, preferencialmente. Afigura-se-nos que o facto de o texto ter sido construído sob a forma de ininterrupto questionamento, cuja resposta é, propositadamente, dispersa no vento, nos envia para uma espécie de neblina do sentido, como se o autor, de modo inadvertido, mas nem por isso menos presente, recusasse responder ou atribuir responsabilidades a quem quer que fosse pelas sucessivas e radicais questões de cariz ético-existencial que o texto, de facto, levanta.

Calcorrear estradas, navegar pelos mares, voarem balas de canhões, eis o fulcro do movimento do homem, da pomba e das balas até atingirem o porto de abrigo: ser considerado um homem, poder dormir na areia, banir para sempre. Inversão dialética, movimento e repouso, atividade e descanso. Deste modo o autor exprime a antinomia presente no âmago do mundo, quer seja na referência expressa ao homem, cuja vida inteira nem sempre chega para atingir o seu destino, o seu objetivo, o alvo da sua demanda, quer na metáfora da pomba branca, que tanto pode querer aludir ao símbolo eterno da paz e da mansidão, como à referência bíblica da pomba de Noé, cuja barca necessitou navegar por longos dias até poder atracar em areia firme, e depois, explicitamente, as balas dos canhões presentes em todas as guerras, literal ou metaforicamente, cujo troar ribomba continuadamente sem que dê mostras de querer silenciar. Dialética expressa na contradição entre o movimento e a necessidade do descanso, dialética nunca remida em síntese, pois a resposta continua móvel na flutuação vária do vento.

O tempo, esse enigma, pressentido pelo homem, medido e espartilhado nas engrenagens construídas para imprimir sentido aos dias e aos anos, o tempo é o protagonista da segunda estrofe desta composição poética. Quantos anos, quantas vezes, e eis aqui presente a repetição de gestos ao longo das épocas da vida individual e coletiva, e é o tempo que uma montanha necessita para ser lavada pelo mar, montanha essa que pode bem ser o amontoado heteróclito de tantas ideologias, teorias e sofismas a necessitarem a purificação das águas, também elas metafóricas pois serão as águas do espírito redimido, e são ainda os anos que alguém precisa viver até ser restituído à liberdade para que nasceu, e é o sujeito individual e é a massa coletiva da humanidade na História, e portanto no tempo, e de novo o tempo, presente nas vezes que os homens se ignoram, voltando a cara, fingindo não ver o rosto do outro, a alegria do outro, a dor e a verdade do outro. O tempo, a exercer aqui a sua irremediável ligação ao espaço e ao movimento por estradas, mares e mesmo pelo ar, a que alude a primeira estrofe, o tempo que ciclicamente desnuda perante a consciência lúcida a sua face emaranhada e dispersa, o tempo, presente na consciência dos homens como catalisador e processo catártico da aventura racional, e contudo a antinomia dialética permanece irresoluta e irresolúvel visto que a resposta continua pairando, difusa, no vento.

Por fim, o grito pungente, o aviso, a denúncia: Como levantar a cabeça e caminhar direito, sem que nos verguem uma e outra vez a cerviz de mamíferos bípedes, advindos à consciência? Quantas orelhas são precisas para que alguém possa ouvir os gritos dos homens? Quantas mortes serão ainda perpetradas antes que ele perceba que já morreu muita gente? Com este último verso, o sujeito-alvo das questões, abstrato e como que oculto nas frases precedentes, objetiva-se na última sentença/questão com este pronome pessoal ele, ele, assim mesmo, com minúscula, afastando a ideia tentadora de que o autor acusa Deus pelos cataclismos presentes na história dos homens, remetendo a responsabilidade para todos, para cada um, responsáveis que somos pela antítese da nossa caminhada orientada para nenhures, ou, menos provavelmente, para uma entidade mais acima na hierarquia do povo, um governante, talvez, ou um líder, esse que poderia ser capaz, se acaso existisse, de dar a resposta que, de novo, continua dispersa no vento.
Através desta análise possível da canção emblemática de Bob Dylan, Blowin’ in the Wind, desvelamos o seu possível alcance filosófico, não porque haja nela obscuridade ou indícios de pretensão ideológica, mas exactamente pelo oposto: as palavras anunciam o cerne das questões vitais de toda a humanidade, presentes, muitos séculos antes do ano em que foi escrita, presentes desde o advento da consciência humana e progressivos sinais de perplexidade e de angústia perante o poder maléfico, e potencialmente letal, do prodígio da racionalidade, aparentemente apenas apanágio do homem em todo o mundo animal conhecido. E contudo a resposta que talvez o leitor/ouvinte lograsse obter, essa não é apresentada por uma razão potencialmente dupla: na medida em que ela flutua e se dissolve no preciso instante em que achávamos tê-la agarrado, permanecendo adiada, permanecendo enigmática e logo incapaz de solucionar os problemas, ou porque é dirigida à consciência de cada um que, tal como o autor do texto, pode elaborar idêntico questionamento, buscando a resposta em si e caminhando coerentemente rumo ao solucionar de um problema que também é o seu.

Pelo que nos foi possível conhecer sobre a história deste poema/canção, escrito em New York, em 1962, quando Bob Dylan tinha 21 anos e começava a trilhar o caminho que o levaria onde chegou e rumo ao qual se fez à estrada, vindo do Midwest, e fazendo fé na folha do manuscrito a que tivemos acesso, o texto nasceu absolutamente coeso, com o ritmo, a métrica, a rima e o refrão exactos, com uma hesitação apenas, quanto às palavras iniciais de um dos versos e uma alteração prontamente realizada ainda no manuscrito que inverteu a ordenação entre a segunda e a terceira estrofes. Magia? Sussurro da divindade ao ouvido do criador? Surto prodigioso de inspiração, qual sopro metafísico a dirigir-lhe o pensamento e a mão?

Numa perspectiva fenomenológica, o ato criativo pode explicar-se racionalmente, aquém ou além da magia (a que aliás o próprio Bob Dylan faz alusão, na entrevista dada em 2004 ao programa 60 minutes), como sendo a organização brusca e objetiva de um processo de laboração íntima, decorrido nas esferas profundas do si e subitamente advindo à consciência de modo claro e apto por isso a ser expresso.

Bob Dylan afirma acerca de si próprio no documentário de Martin Scorsese, No Direction Home, Eu era um expedicionário musical, e atentando ao sentido das palavras expedicionário e expedição damo-nos conta da necessidade que lhe foi inerente, principalmente nos primeiros anos da sua chegada a New York, de caminhar pelas ruas, sorver figuras, sons, imagens cheiros, numa ânsia sensitiva de captar para si os múltiplos materiais do rumor vibrátil da cidade, essa capital do mundo por onde corria o sangue vivo de tudo o que valia a pena sondar e haurir. Como chegou à cidade grande já iniciado, cônscio do seu destino e munido dos meios necessários para a ele vir a aceder, não se permitiu perder tempo e a sua mente foi-se transformando num imenso depósito de sugestões e ideias, que, como se de um caldo primordial se tratasse, foram assumindo formas sempre várias até se concretizarem em melodias e palavras.

Por estas razões, o texto Blowin’ in the Wind releva de uma mente desperta e ativa, de um intelecto conhecedor da situação específica dos homens do seu tempo, quer operada através da observação directa, quer pela prática de escutar e de interpretar as canções oriundas da dor e da miséria das classes oprimidas do seu país, as quais foram a sua primeira escola de músico e de cantor e o primeiro alvo da sua tarefa expedicionária. Não importa que ele, a autor do poema e da música, jamais tivesse sido um desses oprimidos famélicos, não é relevante que por ele não tenham passado, de modo direto, as perseguições, os ataques, as discriminações raciais e tudo o mais que naquele tempo era o pano de fundo da vivência do povo americano (e não iremos analisar em detalhe, de momento, a contextura política, social e económica dos anos 60 nos EUA, pois não é esse o nosso propósito.): o que urge destacar nas linhas deste poema/canção tornado hino e manifesto, cantado e logo divulgado por outros intérpretes e atingindo a celebridade antes de o seu autor poder captar o alcance da obra que tinha produzido, é a capacidade extraordinária de dar corpo a inquietações universais, de as expressar sob a forma inquisitorial, tocando o cerne do desassossego perene da humanidade e percebendo de modo íntimo que as questões, pela sua radicalidade, representam a própria estrutura e logo a fundação da consciência humana, pelo que qualquer hipótese de resposta ou de solução será irremediavelmente dispersa no vento.

Se Blowin’ in the Wind fosse apenas um manifesto panfletário, um meio de intervenção numa cruzada político/social específica, um brado isolado de um jovem sedento de atingir a fama e ocupar, enquanto estrela, o palco sendo protagonista de ações de massas, para além dele, decerto o vigor expressivo das suas palavras e o caráter radical do questionamento, de que é exclusivamente composto este poema, não teriam hoje, mais de quatro décadas depois de ter sido composto, o caráter actual que lhe é reconhecido, a universalidade que lhe é apanágio e ter-se-ia evolado no tempo e erradicado do espaço, que foram, por outro lado, o motivo específico da sua criação.


*BLOWIN’ IN THE WIND
How many roads must a man walk down/Before you call him a man?/Yes, ‘n’ how many seas must a white dove sail/Before she sleeps in the sand?/Yes, ‘n’ how many times must the cannon balls fly/Before they’re forever banned?/The answer, my friend, is blowing’ in the wind,/The answer is blowing’ in the wind.
How many years can a mountain exist/Before it’s washed to the sea?/Yes, ‘n’ how many years can some people exist/Before they’re allowed to be free?/Yes, ‘n’ how many times can a man turn his head,/Pretending he just doesn’t see?/The answer, my friend, is blowing’ in the wind,/The answer is blowing’ in the wind.
How many times must a man look up/Before he can see the sky?/Yes, ‘n’ how many ears must one man have/Before he can hear people cry?/Yes, ‘n’ how many deaths will it take till he knows/That too many people have died?/The answer, my friend, is blowing’ in the wind,/The answer is blowing’ in the wind.
BOB DYLAN, 1962