quinta-feira, 28 de agosto de 2014

MEU QUERIDO MÊS DE AGOSTO

Não podia deixar terminar o mês de Agosto sem dirigir umas palavras de apreço, que trago sempre no
ANABELA BORGES
DR
coração, aos emigrantes.

Eu costumo dizer que, na minha terra, é dos emigrantes o mês de Agosto.

Respeito muito este mês, porque devolve-me a possibilidade de (re)encontrar muitos destes emigrantes, que sonham todo um ano em regressar às origens. E vivem como que num tempo perro, por vezes preso, como entre as paredes de um caleidoscópio, vidrilhos de mil cores e feitios, à espera de um sinal no calendário, que é o regresso a CASA. A casa onde têm o coração. 

Os primeiros destinos dos portugueses acompanharam as conquistas, as descobertas e a expansão marítima. As primeiras vagas foram para as praças fortes do norte de África. Crê-se que no final do século XV, cerca de 100 mil portugueses haviam já emigrado.

Mais recentemente, entre as décadas de 30 e 50 do século XX, muitos, como o meu padrinho (irmão do meu pai, que emigrou para a Alemanha), partiram para diversos destinos, em busca de uma vida melhor.
Em 1954, o senhor Fernando deixou o pequeno lugar onde nasceu, de nome Aboim, no norte de Portugal, atravessou o Atlântico, rumo ao Brasil, onde se instalou para viver. Optimista, ele diz que se livrou da guerra. Lá, encontrou a mulher da sua vida, num casamento que deu frutos, filhos e netos, e já completou as “bodas de ouro”. Na mesma época, tal como o senhor Fernando, cinco tios do meu marido (todos irmãos), oriundos de um lugar remoto pertencente a Santa Marta de Penaguião, seguiram o mesmo destino, como tantos e tantos outros fizeram.

Estima-se que entre 1958 e 1974, 1,5 milhões de indivíduos tenham abandonado Portugal. As estatísticas oficiais registam, por exemplo, que só no ano 1973, que antecede a Revolução de Abril, 123 mil pessoas emigraram.

Tantos partiram em busca de uma vida melhor, na época lutando contra o clamor salazarista do “orgulhosamente só”. Tantos escaparam à guerra, à custa de deixarem famílias sem um elemento, ou partidas a meio, ou partidas por inteiro.

No final da década de 80 e inícios da década de 90, vi eu partir tantos outros, muitos a abandonar os estudos, a interromper uma vida e a iniciar outra, como aconteceu com a minha amiga Emília, que foi para a Suíça e lá continua até aos dias de hoje.

Ao longo de tantos séculos, muitos milhões de portugueses espalharam-se por todo o mundo. Muitas vezes, fizeram-no por razões culturais, outras pelo espírito de aventura, mas os casos que eu conheço existiram sobretudo por motivos de sobrevivência, para encetar a busca de uma vida melhor – a buscar o que o seu país lhes não dá.  

Na realidade, muito haverá para aprender, sobretudo em termos sociológicos, sobre o fenómeno migratório português. Acredito que a emigração portuguesa ainda está por compreender em toda a sua extensão e implicações.

A emigração portuguesa é um “eterno retorno”. A roda dentada do tempo gira e cria uma nova onda de emigração, a cada instante isso acontece, como está a acontecer agora – todos os dias gente partindo, agora como outrora, como um fado. Levam assombros no olhar, lágrimas e incertezas, e mãos vazias de tudo. E mais do que o silêncio, a distância e a saudade, carregam vidas aos ombros.

O emigrante português, apesar das asas que lhe enfeitam o coração, procura sempre o solo em que se há-de alimentar a sua sorte, como árvore de fortes raízes a agarrar-se à terra que o viu nascer. Não se renega nunca. Sempre regressa.

Não podia deixar acabar o mês de Agosto sem lembrar o emigrante. Boa viagem. Bom regresso. Bom final de tanto. Bom (re)começo de outro tanto que está PORvir – tanto que sabemos já  (que o intuímos) e outro muito tanto de incertezas.

Assim são os emigrantes do meu coração: 

Debatem-se em alegrias,
Conversas rasgadas e risos,
do nascer ao sol-posto.
E é deles a noite e o dia:
as festas e as romarias, as ruas e a sombra das árvores, o folclore e a aldeia, o rio, o mar e a areia…
É deles o mês de Agosto,
que trazem bem guardadas
as adversidades de um ano todo,
porque, em Agosto,
é de esperança inequívoca
o seu rosto.*

*De uns verso que escrevi. 

1 comentário:

  1. Gostei muito de ler e reler este texto e como eu gostaria de "saber" comenta-lo... Mas para dar uma pequena ideia do que senti vou citar apenas três frases que tanto dizem: "Levam assombros no olhar, lágrimas e incertezas e mãos vazias de tudo". Os versos são também um hino ao imigrante.

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